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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Novembro de 2002 às 00:00
A nomeação, pelo ministro David Justino, da Comissão para a Promoção do Estudo da Matemática e das Ciências, presidida e composta por membros altamente prestigiados, fez finalmente nascer a luz ao fundo do túnel da iliteracia científica do universo estudantil português. À data em que escrevo, não foi tornado público qualquer relatório dessa Comissão, sendo mesmo de supor que, dada a ingência da matéria em apreço e a necessidade de avaliar tudo quanto até agora foi feito (ainda que sem êxito) no sentido de se reduzir os efeitos da vaga tumultuosa que anualmente inunda as pautas de Matemática, tão cedo aquela douta Comissão não virá a propor soluções para o magno problema.

Entretanto, nada mais natural do que, na ausência de directivas desse grupo de especialistas, surjam aqueles, entre os quais me incluo, que se arrogam a presunção de, enquanto reconhecidamente leigos, ter algum voto na matéria, comentando e discutindo o que se passa, à semelhança dos "treinadores de bancada" tão incómodos na política. Aliás, mais do que leigo na matéria, tenho a autoridade que me advém de uma reprovação em Matemática no então segundo ciclo, pecha bastante comum aos alunos com vocação para Letras.

Não resta qualquer dúvida de que os estudantes portugueses são, na sua maioria, refractários ao ensino da Matemática. Na rudimentar aritmética ainda se safam, mas quando entram no domínio das matemáticas, da álgebra, da geometria, da trigonometria, é notório o seu mau aproveitamento e o abismo que separa os estudantes portugueses dos seus homólogos estrangeiros. Ora, perante esta situação, que resulta primariamente do binómio professor-aluno, o cidadão comum, por uma associação genética (ele detestava a Matemática, portanto é natural que o filho a deteste), tende a considerar uma espécie de fatum ou de anátema esta repulsa pela Matemática, geracionalmente renovada. Por outro lado, aqueles com mais conhecimento e responsabilidade neste panorama refugiam-se, por certo, com argumentos ponderáveis, na existência de numerosos factores periféricos para explicarem o insucesso escolar, nomeadamente a complexidade dos programas, o meio social, o desinteresse dos encarregados de educação, a falta de aplicação dos estudantes e de empenho dos professores.

Tais factores periféricos inquestionavelmente existem e, em muitos casos, explicarão porventura e em parte o insucesso dos alunos. Há, no entanto, que distinguir entre a sua eventual influência na generalidade das disciplinas e o provável efeito que poderão ter na Matemática. Porquê nesta em especial? A complexidade dos programas, por exemplo, não é um exclusivo desta cadeira.

Tão-pouco o meio social discrimina necessariamente o estudo da Matemática. Só o desinteresse dos encarregados de educação poderá, eventualmente, ser mais determinante ao dificultar o seu diálogo com os educandos. Tomando portanto em consideração todos esses factores (em particular o meio social) talvez eles expliquem melhor os maus resultados obtidos em Português.

Em qualquer dos casos, mesmo reconhecendo a existência de tais factores exógenos, por que motivo considerar como um polinómio complexo o que não passa, na sua essência, de uma simples equação a duas incógnitas? Os verdadeiros protagonistas, o “x” e o “y”, são o professor e o aluno. Se aquele conseguir ultrapassar o clima de aridez e de frieza que os números por vezes suscitam e for capaz de transmitir ao discente, de forma acessível, atraente e estimulante, os conhecimentos que possui, então talvez o aluno ultrapasse a barreira do desencanto e o receio inicial desse "papão", e se interesse verdadeiramente pela Matemática.
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