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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Dezembro de 2005 às 17:00
A todas as mentiras já institucionalizadas na cena política nacional acrescentou-se, na passada segunda-feira, mais uma. A dos debates. Quem não viu não acredita.
Cavaco intimamente reconfortado pelas sondagens foi fazer um grande frete. Apadrinhar o debute pré-presidencial de um júnior, que, como todos os debutantes, meninos altamente prendados, foi um modelo de bom comportamento. Deu no que deu.
Interessante só a afirmação de Cavaco de que está convencido de que a Direita (leia-se CDS/ /PSD) não irá reivindicar como sua uma potencial vitória do professor de Economia.
Cavaco ou está convencido do que diz, e será preciso cuidado com a sua ingenuidade, ou mente, e então que seja bem-vindo ao grande clube onde todos os seus adversários o esperam. Cavaco passeia-se pelo País com um vistoso autocolante do CDS e do PSD colado nas costas. Por muito que ele sacuda as moscas e afirme (e esteja convencido de) que a Direita não reivindicará como sua uma eventual vitória de Cavaco nas Presidenciais, sabe que não será assim. Pode não o fazer nas ruas, nem nos jornais e televisões, mas saboreará a vitória com bom champanhe, como uma dádiva dos céus.
Seria mais sério assumir esta realidade e falar do futuro. Porque no futuro depende só dele ser, ou não ser, capaz de corrigir, minimamente esta herança.
Cavaco é, hoje, o representante da Direita por adopção desta e porque a Esquerda estupidamente assim o decidiu. Insistindo em atirá-lo para os seus braços, a que ele desajeitadamente e com muito pouca convicção se esforça por escapar.
Será Cavaco mais de direita do que Eanes, que a Esquerda num golpe de asa pescou nos esconsos dos quartéis e (como nós) teve de engolir e gramar durante dez anos?!!
Do outro lado temos Soares a afirmar-se como potencial Presidente de todos os portugueses. Uma forma diferente de dizer a mesma mentira. Um afirma-se já independente. O outro (estrategicamente mais inteligente) só promete vir a sê-lo. Mas ambos sabem que não há na política partidária, ou entre quem por lá tenha ganho os seus galões, quem possa afirmar-se independente. A independência é um estado de alma que se não compadece com estas convenientes reconversões. Não admite mácula.
Nem Cavaco nem Soares nem Alegre (Jerónimo e Louçã não têm essas veleidades…) podem, seriamente, reivindicar esta qualidade. Fica-lhes mal. Porque têm inequívocas e profundas raízes partidárias, porque têm inequívocas bases de apoio que os referenciam, os comandam e deles muito esperam. Porque fazem campanha uns contra os outros e, sobretudo, porque, por definição, na luta política não existe independência. Toda ela se faz contra alguém ou alguma coisa. Toda ela é vinculação. A partidos, a clientelas e, na melhor das hipóteses, a ideais, a ideologias e a princípios e motivações (muitas vezes as piores) da mais diversa natureza. Neutralidade verdadeira em política (outra palavra para a independência política) é um conceito vazio.
Porque insistem, então, Cavaco e a Esquerda neste procedimento sem pés nem cabeça?
Porque continua a falar-se de independências?
Precisamente porque nenhum dos candidatos é independente, porque todos têm perfeita consciência disso e, sobretudo, porque todos têm uma necessidade absoluta de denegar a realidade. Faz parte do folclore esta forma primitiva de exorcismo.
É a herança político-genética a funcionar… Incontornável.
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