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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Infernos

A cidade de Boston é um pouco menor do que Lisboa, com cerca de seiscentos mil habitantes, e uma área metropolitana que é o dobro daquela que rodeia a nossa capital.

Francisco Moita Flores 21 de Abril de 2013 às 01:00

Perto de cinco milhões de almas vivem e labutam tendo como principal polo de atração aquela cidade. É ali que cresceram duas das instituições universitárias mais respeitadas do mundo – Harvard e o MIT – e é, sem dúvida, um dos mais importantes centros culturais da América.

Há pouco mais de uma semana, durante a tradicional maratona, rebentaram três engenhos explosivos. Três mortos e várias dezenas de feridos puseram os Estados Unidos em choque, ainda vivendo os traumas dos atentados do 11 de Setembro, e chamaram a atenção do mundo inteiro. Barack Obama falou ao país, as forças de segurança mobilizaram-se em força, as dúvidas sobre os organizadores do ataque, onde surge sempre como primeira suspeita a Al-Qaeda, potenciou uma caça ao homem como nunca se viu. A cidade foi verdadeiramente sitiada, mantido um quase recolher obrigatório, com buscas casa a casa, numa ação rápida e de forte firmeza policial que ficará para a história como um exemplo da grande colaboração entre polícias e cidadãos. Aliás, foi através de vídeos e fotografias fornecidos por milhares de pessoas que a polícia conseguiu identificar os dois bombistas.

É conhecido o desfecho do caso. Porém, ressaltam duas ideias essenciais. A primeira delas tem a ver com a política dos falcões que tentaram desde logo militarizar a reação ao acontecimento. O fantasma do regresso da Al-Qaeda a solo americano abria as possibilidades de ganhar mais uns milhões de dólares à custa do sofrimento comum pois, quando se abate o inferno sobre uma comunidade, é fácil para os facínoras securitários fazerem dinheiro sobre a irracionalidade do medo. Felizmente que a polícia reagiu a tempo e desvalorizou as teses dos negociantes da morte. A segunda ideia é um exercício de mera fantasia. Imaginemos que o atentado, em vez de ser em Boston, tinha ocorrido na maratona de Lisboa e se impunha, como solução mais eficaz, sitiar a cidade e fazer buscas casa a casa. Cairia o Carmo e a Trindade. Nem acredito que algum comando policial pusesse essa hipótese. Num país que não se governa, nem se deixa governar, os bandidos serão sempre os privilegiados do regime.

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