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Correio da Manhã

Opinião
10 de Outubro de 2004 às 00:00
Sinais negativos. Isto está mal, mas pode ficar ainda pior. A retoma, mais desejada que D. Sebastião, tarda em chegar e dos mercados internacionais chegam notícias preocupantes. O cenário tenebroso do barril do petróleo a 50 dólares já foi concretizado. Agora os 60 dólares são um valor possível a atingir e se isso acontecer vamos todos pagar essa louca onda especulativa. Não vai ser só a energia e os custos dos transportes que vão ficar mais caros. Todos os bens e serviços sofrerão pressões inflacionistas.
Se houver alta da inflação, a subida dos juros é uma certeza, o que para milhares de portugueses é um pesadelo, porque além de pagarem mais pelos bens do dia-a-dia também serão penalizados nas prestações da casa e do carro. Logo, haverá menos dinheiro disponível para despesas e investimentos, o que se traduz numa maior depressão da actividade económica e aceleração deste ciclo vicioso e deprimente. Quem trabalha e recebe o salário vai perder qualidade de vida, mas a situação mais dramática é a das pessoas que ficarão sem emprego e as que vêem os seus negócios afundar-se na crise.
As previsões ligeiramente optimistas, divulgadas recentemente pelo Banco de Portugal, tinham como ponto de partida a cotação do barril do petróleo nos 36 dólares. Sempre que a cotação estiver acima daquele patamar há uma óbvia degradação das expectativas. Mas mesmo se o ‘ouro negro’ baixar para valores inferiores aos 36 dólares, a retoma não chegará a galope. No próximo ano, novos desafios se colocarão à economia portuguesa. Um deles é a liberalização do comércio têxtil mundial, que vai fechar dezenas ou centenas de fábricas em Portugal, que não serão capazes de resistir à concorrência desleal vinda da Ásia.
Deslocalização. Não são só as empresas e os empregos do sector têxtil alvos de ameaça. Sexta-feira passada registou-se um protesto dos trabalhadores da Alcoa, uma fábrica do concelho do Seixal com 1100 colaboradores. A multinacional americana adquiriu a Indelma, em 2000, e, segundo fonte sindical, recebeu cinco milhões de euros de fundos estruturais para os postos de trabalho serem assegurados. Agora, a empresa de qualidade reconhecida e que fabrica as cablagens para a AutoEuropa, o maior exportador português, corre o risco de fechar, porque a administração pretende transferir a produção para a República Checa.
Outra importante empresa da Península de Setúbal, a Merloni/Ariston, só pretende manter em Portugal a actividade de congeladores horizontais, que têm cada vez menos procura. As outras linhas passam para a Polónia e, dos 400 empregados do início deste ano, só deverão ficar 50. A deslocalização destas empresas não afecta só os trabalhadores. Há as empresas fornecedoras e muitos serviços envolventes que serão prejudicados e obrigados a fechar as portas.
Anexação espanhola. Enquanto isto se passa os grupos espanhóis vão reforçando a sua presença na economia portuguesa. Por cerca de 200 milhões de euros, o gigante Repsol adquiriu à Borealis o complexo petroquímico de Sines. Com esta operação aumenta a dependência portuguesa face a Espanha.
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