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Correio da Manhã

Opinião
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24 de Junho de 2004 às 00:00
Hoje, Portugal joga a continuidade no Euro tendo do outro lado a mais consistente Inglaterra das últimas décadas e inaugurando mais uma originalidade: a alegria do ‘fifty - fifty’. Até agora, em europeus ou mundiais, a equipa do país organizador contou sempre com uma arma poderosa e óbvia: o apoio da esmagadora maioria do público. Mas nós, não. Nós, portugueses, somos diferentes.
A organização negligenciou o controlo sobre a venda de bilhetes – quis assegurar o lucro ou não confiou nas possibilidades da sua selecção –, ao ponto de hoje a Luz estar ela por ela, meio por meio, entre adeptos ingleses e afortunados portugueses. E perante mais este golpe de génio, esta verdadeira originalidade, esta elevação do ‘fair play’ ao máximo jamais visto em organizações do tipo, o ministro José Luís Arnaut, num rasgo, baptiza o fenómeno: é o ‘fifty - fifty’.
Somos tão bons anfitriões, ou tão desgraçadamente incrédulos ou imprevidentes, ou tão ávidos do lucrozinho garantido à distância, que as bancadas da Luz vão fazer jus a este novo conceito de Arnaut: depois do brilhante Força Portugal de êxito já comprovado na política, chega agora a mais recente criação desta figura ímpar da estratégia de comunicação política: o ‘fifty - fifty’ com que brindamos hoje o nosso mais antigo aliado.
Se o jogo fosse com a França, seria ‘cinquante-cinquante’? Se tivesse calhado a Suíça, dependeria do idioma maioritário? E se defrontássemos a Croácia? Pronto, é o ‘fifty-fifty’, porque Arnaut não brinca em serviço e isto estava tudo previsto entre dois balanços de segurança para brilhar nos media.
Pelo seu lado, Gilberto Madaíl também não faz as coisas por menos: o eterno presidente desta vez não pode culpar nenhum treinador. Garante Madaíl que a responsabilidade vai inteirinha para os portugueses que não o quiseram ouvir. Ele fartou-se de alertar para este perigo. Pena que, de facto, ninguém tenha dado por isso, quando Madaíl tem à sua disposição meios tão poderosos de divulgação, que, no caso deste risco de cataclismo, comprovadamente não usou.
Portanto o diagnóstico está feito por quem tem responsabilidade. Arnaut acha que assim é que é: ‘fifty - fifty’ vai ser tão giro, é ‘fair play’ cosmopolita não acham? Já Madaíl, no terreno que melhor conhece, foge para a frente sacudindo a invasão inglesa do capote com a descoberta do mais numeroso dos responsáveis: o povo português. Ele bem alertou, não venham agora dizer que não se lembram... Demitam-se. Ou, pelo menos, ponham o lugarinho à disposição… dos ingleses
Vai ser assim num estádio neutralizado pelas vistas curtas da organização que os jogadores que representam Portugal defrontam a mais poderosa Inglaterra das últimas décadas. Quando o hino inglês ressoar mais alto nas bancadas do que ‘A Portuguesa’ como se vão sentir os atletas?
Não perguntem isto a Arnaut, se não ainda levam como resposta que ‘fifty - fifty’ só peca por defeito. Portugal sempre jogou melhor fora de casa.
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