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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Maio de 2003 às 00:00
Fátima Felgueiras escavacou a Câmara que dirigiu, onde já ninguém se entende, deu uma machadada de efeitos imprevisíveis no sempre difícil processo de relacionamento dos cidadãos com o poder judicial e deixou um sabor amargo na boca de todos os autarcas deste País já suficientemente amachucados com as repercussões recentes, entre outros, dos casos de Isaltino , do deputado do PSD de Águeda, Cruz Silva, e do partenariado PS/PSD na Câmara da Amadora.
Ao desaparecer FF deixa-nos, desde logo, com a certeza de que, contrariamente ao que sempre apregoou, muito provavelmente não estará inocente. Porque a alternativa só pode ser a falta de confiança na bondade da Justiça Portuguesa, que ela se não pode permitir sob pena de esvaziar, ainda mais, de sentido todo o seu passado. Se um presidente de Câmara não acredita na Justiça, acredita em quê ? Com que regras e meios gere o interesse público?
Quem não acredita na justiça não acredita em nada. Não tem regras nem limites. Não sabe o que são direitos nem deveres, nem sequer o tão comezinho respeito pelos outros.
Fátima fugiu. Mas o PS continua por cá e sem ter onde se esconder. Por mais que Assis tente fazer voz grossa e querer parecer que está a resolver alguma coisa, não está. O pecado da escolha nunca lhes será perdoado. O mal foi feito há muito tempo e não tem remédio. E não é exclusivo do PS nem de Felgueiras. É um mal generalizado no nosso universo autárquico decorrente da postura dos líderes partidários face aos objectivos eleitorais. Trocam-se pecados por números. Se o candidato tem valor , ou não, firmes princípios e uma postura digna é secundário. É assim no PS e é assim no PSD. É o pecado mortal do sistema.
Muitas Fátimas Felgueiras hão-de florescer ainda neste País, antes que alguma coisa de essencial mude. A tentativa de limitar os mandatos dos autarcas é , aliás, o melhor exemplo, do fingimento e da falta de vontade de querer modificar o que quer que seja por parte dos líderes partidários. De impor uma moralização na escolha das pessoas. É prolixo limitar mandatos se os candidatos são sujeitos a uma escolha prévia que pode perfeitamente eliminar os indesejáveis e o não faz, só porque o não deseja.
A dupla nacionalidade parece garantir um futuro risonho à ex-autarca.
O Brasil começa a ser um caso sério para a Justiça Portuguesa. Sobretudo se tivermos em conta a facilidade com que brasileiros e portugueses cruzam o oceano e se instalam e o total desconhecimento de quantos portugueses têm já a dupla nacionalidade. Já tínhamos o padre Frederico, julgado e condenado por crime grave, que finge agora acção apostólica junto de comunidades do Rio escolhidas a dedo. Juntou-se-lhe agora Fátima Felgueiras. Como o filão promete já deve andar por aí uma legião de candidatos à dupla nacionalidade a tratar da vidinha, não vá o diabo tecê-las.
Em Felgueiras as opiniões dividem-se, como sempre. O facto de na origem da descoberta de tudo isto estarem também rivalidades e invejas políticas e não só o interesse local, é suficiente para que grande parte da população seja tentada a ver neste imbróglio o resultado de ajustes de contas e de invejas mal digeridas.
Todos sabemos as "originalidades" de que se alimentam a alta política nacional e autárquica onde os comportamentos vão do conluio mais descarado até à mais traiçoeira facada nas costas. O que , só por si, justifica este quase consenso quanto às motivações dos denunciantes. Vêmo-las todos os dias.
Mas não são a natureza e motivação das denúncias que tornam melhores os factos denunciados. Só acrescentam alguma coisa à nossa perplexidade pela grandeza da caldeirada e ao desânimo por a denuncia não decorrer, antes, de uma atenção especial dedicada às actividades dos autarcas, no momento e lugares próprios.
Mas no que as opiniões se não dividem é na teimosia em manter as imunidades legais de alguns agentes políticos dando-lhes, por vezes, um conteúdo verdadeiramente ignominioso, a que os seus beneficiários se acoitam sem a menor vergonha ou o mínimo assomo de dignidade . Privilégios que começam a ter um estranho sabor a folclore medieval.
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