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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Julho de 2006 às 17:00
A concentração do controlo editorial da Comunicação Social é um perigo, pelo que pode condicionar a liberdade de escolha, direito inalienável das democracias representativas. Esse perigo é tanto mais real quanto mais pequeno, por isso mais ‘manipulável’, for o País.
Santana Lopes e José Sócrates têm talento, mas será que teriam chegado onde chegaram sem as horas de televisão de que beneficiaram?
Rebelo de Sousa e António Vitorino têm atributos intelectuais acima da média, mas teriam o mesmo reconhecimento sem a generosidade de alguns dos media de referência, ‘maxime’ das TV?
É seguro que não e são muitos outros os casos em que esse tipo de privilégio funcionou. Assim, embora os próprios tenham dado algum contributo pessoal à construção do seu percurso, nos últimos anos, alguns media prepararam o terreno para condicionar as decisões populares: como ocorreu na troca de Santana por Sócrates, em S. Bento; quando previamente Carmona foi ‘escolhido’ em detrimento de Carrilho; ou quando, antes do Congresso, ‘decidiram’ eleger Marques Mendes para líder da Oposição.
Todavia, os beneficiados devem ser cautelosos, não vá o desígnio ter sido mal intencionado e circunstancial. Estará Marques Mendes nessa situação? Partindo do pressuposto de que o PSD vai perder as eleições em 2009, era preciso encontrar uma espécie de Infante D. Pedro, desalojável após a Alfarrobeira, da derrota perante Sócrates. Até lá Mendes ocupava espaço, de uma forma urbana, dividindo o poder, deixando que, sem riscos, as estrelas do futuro cintilassem.
Assim, não é de estranhar que face à dificuldade de afirmação pública do presidente do PSD, a realidade comece a ser cristalina. Os mesmos que o promoveram já iniciaram o inexorável processo de incineração do seu futuro. Ao mesmo tempo vão fabricando líderes em laboratório para, na altura própria, os imporem aos ‘lorpas’ dos militantes e eleitores.
Discordo de muito do que tem feito o líder social-democrata: discordo dos dois pesos e duas medidas com que avançou com o seu “pacote da transparência”, discordo de muitas das opções na constituição da sua equipa, discordo da forma como tem consentido que alguns dos seus próximos persigam quem praticou o ‘crime’ de não o apoiar, discordo das ilegalidades fomentadas para controlar uma mera comissão política concelhia – até correndo o risco de colocar em causa a estabilidade da terceira maior câmara do País –, discordo da falta de propostas concretas.
Apesar destas divergências, reconheço que a sua tarefa não é simples e, fundamentalmente, discordo dos que já o condenaram ao falhanço. Discordo porque esse fracasso não é inevitável e porque os que assim se comportam não merecem o mínimo de respeito, tanto mais que, ao contrário do autor desta prosa, não tiveram a coragem de sufragar uma alternativa.
No combate a essa pseudo-aristocracia partidária, sem alma e sem coluna vertebral, filha das benesses do sistema e cujo único sacrifício pelo partido é o de se pôr na fila à porta da S. Caetano nas noites de vitória eleitoral, estarei na primeira linha.
Assumirei sempre as minhas divergências, mas acredito que o jogo de 2009 está longe de estar jogado. E a minha militância não está condicionada à ridícula aceitação ‘dos meus préstimos’ ou daqueles que pensam como eu.
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