Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
4
12 de Julho de 2003 às 00:10
Lula da Silva veio a Portugal. Dirigente do PT, o partido mais à esquerda do espectro político brasileiro, único partido assumidamente Marxista, é hoje o presidente do maior país da América do Sul. Derrotado em sucessivas eleições presidenciais, acusado de ser um perigoso comunista e um agitador profissional, Lula nunca prescindiu do seu sonho: chegar à presidência da República. Ele, o operário metalúrgico, que comeu o pão que o diabo amassou, como primeiro dirigente do Brasil.
O treino ganho em tantas batalhas políticas amadureceu-o como homem e como político. Foi progressivamente limando as arestas mais incendiárias e esquerdistas do seu discurso, a sua própria imagem sofreu alterações, perdeu em agressividade o que ganhou em simpatia. Fez tudo isto sem, no entanto, nunca abdicar do propósito que foi bandeira ao longo de toda a sua vida: transformar a sociedade brasileira numa sociedade mais justa na distribuição da riqueza e acabar com inaceitáveis privilégios da classe dominante. A sua determinação foi tão forte que outros candidatos plagiaram e repetiram o seu discurso e os seus objectivos. Sucede que Lula da Silva tem a credibilidade de uma vida inteira, ancorado no seu passado, na sua origem social, na incansável persistência da sua luta. Lula é hoje um homem aparentemente confiante e sobretudo sensato. O seu despojamento e a sua simplicidade inspiram simpatia. O fantasma do comunismo agitado pela direita brasileira desfez-se, perdeu sustentação.
O Brasil continua a ser um país de economia de mercado, aberto ao investimento estrangeiro, nomeadamente português. O presidente da PT, que detém importantes interesses no Brasil, ainda recentemente não lhe poupou elogios. Se Lula conseguirá ou não honrar e cumprir os seus compromissos e vergar a pesada e frequentemente corrupta administração central e local brasileira é uma interrogação que o tempo ainda não permite responder. Uma coisa é certa nesta sua visita a Portugal: é possível estabelecer desde já diferenças em relação a outro grande político brasileiro e seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
A frieza e altivez do último – aliás bem evidenciada nas comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil – Lula contrapôs a sua simplicidade e até alguma emoção neste reencontro com a população portuguesa. Talvez por isso se possa dizer como foi inoportuna a intervenção do presidente da Assembleia da República, Mota Amaral, ao dizer que não acreditava nos resultados de uma gestão sob a orientação de Lula da Silva. O "gentleman" Mota Amaral foi capaz de ser grosseiro na sua casa, a Assembleia da República, ao receber o homem simples, cordato e bem-educado que representa mais de 200 milhões de pessoas que falam a língua de Camões.
Na correria que foi esta visita, ficaram a pairar na minha cabeça as palavras que dirigiu a Mário Soares: "Vir a Portugal e não estar com o dr. Mário Soares é, como se diz, ir a Roma e não ver o Papa". Soares recebeu o elogio com um sorriso caloroso mas desta vez provocou em mim alguma nostalgia: que saudades do presidente Soares! Que deserto se criou ou se instalou depois da sua saída. Soares e Lula são grandes por natureza, por mais que os pigmeus convoquem os demónios para a dança da discórdia.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)