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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Julho de 2003 às 00:00
A semana foi dominada pela visita de Lula, um homem que, com uma bonomia e uma ingenuidade genuínas, em pleno século XXI, recuperou (ou julgou recuperar) para a política ideais que as primeiras investidas da fúria globalizante e as aventuras neoliberais há muito tinham remetido para o sótão das velharias que são os arquivos históricos. E em que alguns evitam a todo o custo tocar.
Lula é um estranho personagem no ainda mais estranho mundo real em que vivemos.
Mas Lula deu-nos o pretexto para pensar a nossa esquerda. Que de tal modo se descaracterizou que chegámos ao ponto de não saber o que é. A nossa esquerda vive com as suas muitas certezas, mas paradoxalmente desgasta-se na definição da sua própria identidade.
Perdeu a noção essencial daquilo que a deveria distinguir. Porque passou pelo poder e sofreu as suas agruras. Não foi capaz de se identificar com ele. Embaraçou-se, mentiu-nos e começou a mentir a si própria.
Hoje continua desesperadamente à procura de rumo.
O BE está muito verde, ainda prisioneiro de todos os folclores, o PC muito velho e rezingão, e o PS muito doente.
Por isso, mesmo olhando-o de soslaio, se encantaram com Lula e a sua simplicidade.
A "esquerda", para não se tornar definitivamente patética, e viver à beira da morte cerebral, só tem dois caminhos a seguir. Ou se torna num núcleo de reflexão permanente e séria dos muitos problemas do mundo, capaz de promover a discussão e a dirigir incessantemente (hipótese que todos sabemos lhe saber a pouco...), ou se assume e arrisca, sem hesitações, provocar a mudança. Coisa que só poderá fazer quando souber o que quer.
A nossa esquerda, na sua notória indigência ideológica, tem de aprender que se quer continuar a movimentar-se na área do poder sem perder a face vai ter de enfrentar os seus inimigos. De palrar menos e fazer mais. Porque se ser de esquerda dependesse apenas de conversa, não havia ninguém de direita neste país.
A nossa esquerda , pela via da lei do menor esforço, assumiu uma série de postulados económicos, políticos e sociológicos, que lhe assentam mal. Sente-se albardada, mas não é capaz de dar uns coices.
Este é o drama das esquerdas "modernas" ou Europeias. Que têm consciência de viver prisioneiras de forças que se não compadecem com ímpetos revolucionários, reformismos românticos nem com fantasias evangélicas, mas pouco se importam com isso. Basta-lhes estar. A questão do "ser" é para filósofos. Optaram por um pseudo pragmatismo oportunístico , imoral e tipicamente de direita.
Frágil nas suas convicções, a nossa esquerda aprendeu bem e depressa de mais a lição e põe à cabeça dos seus objectivos a própria sobrevivência . E nisso não está só.
Aprendeu com as suas congéneres. As esquerdas "actualizadas", ditas cultas, lúcidas e inteligentes. Aquelas com que a direita não se importa de alternar no poder. E onde caberiam muitos dos teóricos da própria direita que fazem de um certo grau de independência o seu emblema.
Capaz de quaisquer alianças ideologicamente contra natura por mais aberrantes que sejam.
São as esquerdas que destruíram a nossa imaginação, e nos retiram toda a esperança quando nos privam de qualquer alternativa ao risco de uma governação desgovernada.
Vivem todos na mesma casa e pintam-na de cinzento para que ninguém se zangue na escolha das cores.
Por isso as esquerdas chegam ao poder , mas já não metem medo a ninguém, Como também já não suscitam grandes expectativas. Nem amores, nem ímpetos, nem envolvimentos. Na Europa Ocidental o romantismo político está morto e enterrado há largas décadas.
Lula só no Brasil. E enquanto os seus poderosos inimigos, os que têm tentáculos que chegam a todo o lado, quiserem. Quando eles se sentirem em perigo não haverá Mãe nem Pai de Santo que lhe valha.
Lula é um caso notável. Parece conhecer mal a história do seu sofrido continente, mas tem fé. Não é um líder político, mas o dirigente de uma nova religião. Que promete e espera verdadeiros milagres. Mas não há nada como vir à Europa. Até nas palavras se mostra já cauteloso.
Não foi nossa intenção escrever antecipadamente o seu epitáfio.
Que nos perdoe. Só quizémos falar do que por cá temos.
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