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Correio da Manhã

Opinião
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21 de Outubro de 2005 às 17:00
Cavaco anunciou o que todos já sabíamos. E disse.
Jurou antecipadamente a Constituição. Sossegou Sócrates e o PS. Poupou Soares. Enfatizou a sua independência. Autobeatificou-se. Lição curta mas bem estudada. E partiu a tentar uma segunda vida na política.
Não foi o velho Cavaco que veio disponibilizar-se para mais um retrato na galeria dos presidentes. Esse morreu e a sua alma apoderou-se de Sócrates. Foi um Cavaco mais velho e calculista, apesar de todas as suas minuciosas e quase angelicais prudências.
Falsamente frio e neutro como só ele sabe ser. O D. Sebastião prometido aos portugueses ainda não veio desta vez, mas voltou a anunciar-se. Promete-nos credibilidade e confiança e pede-nos esperança. Cavaco sabe que estão longe os tempos em que a sua candidatura era anunciada (e vista por muitos) como um passeio triunfal até Belém, com a direita a vitoriá-lo e a esquerda, perdida, receosa e invisível na sombra do seu fantasma.
Quer ser um candidato independente, mas nem o seu currículo nem a direita (que o aprisionou) nem a esquerda (que o combate) lho permitem. A independência tem um preço que Cavaco não quis pagar nunca e agora é tarde. E, depois, o que valeria Cavaco, realmente, sem a direita?
A esgotante duração da farsa que protagonizou até ontem, a conjuntura, as opções de Sócrates e do Governo do PS e as linhas gerais do Orçamento para 2006 tiraram toda a expectativa ao seu anúncio de ontem. Esvaziaram-no de significado útil. Sócrates promete ir mais além do que iriam Cavaco e Manuela Ferreira Leite juntos. Com as políticas anunciadas, a direita começa a respirar fundo e, a curto prazo, já não precisa de Cavaco para nada.
De tanto martelar na imagem de Cavaco, os seus arautos acabaram por danificar a obra. Agora os tempos são outros. A direita continua à espera de quem promova as suas políticas e cause embaraços aos governos de esquerda. A direita não quer saber se Cavaco a traz no coração ou não. Isso são trocos. O que dele esperam (ainda) é que barre o caminho aos candidatos de esquerda e um pragmatismo que nas horas capitais não deixe dúvidas a ninguém. Será essa a factura que lhe será apresentada e que ele parece não querer pagar.
Cavaco tem pouco tempo e uma imagem para recompor. Limpar a sarna que se lhe colou (sem que ele a receasse) e encontrar um significado para a sua candidatura. Que não se pode limitar a uma evangélica mensagem de confiança e “esperança”. O jogo é mais sério do que isso. Na política não se joga a feijões. Vai ter de lutar pela sua eleição com ideias e paixão (coisa difícil) e o resultado é cada vez mais incerto. A penúria da esquerda deu em fartura. E, mesmo com a casa desarrumada, perdeu a timidez e está disposta a tornar-lhe a vida negra. Até na direita há já quem hesite no seu apoio e fale de “condições”. Mau agoiro. Definir a sua base de apoio é tarefa cada vez mais difícil. E o grande desafio.
Parece mentira, mas Cavaco está desde ontem mais só do que nunca. Porque não é o candidato da esquerda, nem arrebata a direita, que, carente, lúcida e oportunista, apenas lhe tolera um casamento de conveniência. A independência não se conquista rasgando o cartão do partido.
Os promotores da sua imagem nos últimos anos não estavam lá, porque eles próprios sabem que são companhias a evitar. Todos. Porque não é o homem, Aníbal C. Silva, que querem. É uma versão idealizada (e por isso falsa) de um presidente que dê resposta aos seus anseios e apazigue os seus medos.
E Cavaco não disse, nem sabe, como vai escapar-se a este abraço mortal. Porque não vai.
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