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Correio da Manhã

Opinião
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29 de Dezembro de 2006 às 17:00
A meia-noite de domingo a tirania do calendário que o monge Dionísio concebeu para o Papa João I vai atirar-nos para um novo ano. Que, para não variar, nasce velho e sem alegria, como os clones. Coisas da cronologia. No dia 1 de Janeiro a única coisa que alguns de nós teremos para nos recordar que algo aconteceu durante a noite será uma soberba ressaca. Ilusões são sobremesa que, para mantermos a saúde mental, nos não permitimos já há muito tempo. Um pouco de fantasia e optimismo fazem sempre algum bem à saúde. Nossa e daqueles que nos governam. Porque é desse nosso optimismo que, sobretudo eles, vivem. E sobrevivem. Mas ninguém sobrevive num mundo só de fantasia. E não há volta a dar-lhe. Não é preciso consultar astrólogos nem bruxos para saber que as únicas coisas que os portugueses têm como certas são os impostos, o aumento dos preços e a morte.
Mau grado o inesperado amor que tomou conta dos corações de Sócrates e Cavaco, porventura o mais feliz casal político da Europa. E que nenhum deles faz questão de esconder, porque não tem quaisquer outras fidelidades a respeitar. E que ameaça durar, porque ambos gostam do que têm e sabem que as relações duradouras importam sacrifícios e cedências. As oposições desesperam e finalmente percebem que algo está mal neste sistema democrático capaz de se auto-bloquear, mas não querem estragar a felicidade do casal.
O grande circo do mundo, do qual nós somos espectadores e actores, é isto. Um espectáculo de sessões contínuas. Sem compassos de espera, intervalos, nem novidades. Com velhos artistas cada vez mais decrépitos e sem imaginação, também eles a procurar sobreviver à sua maneira. Lá fora, Kofi Annan, homem lúcido e já sem ilusões, deixa a ribalta amargurado, impotente e melhor conhecedor das mentiras da política internacional. Fica-se por 2006. Deixa o seu cargo para um enigmático sul-coreano, Ban Ki Moon, que nos promete pôr a caquéctica ONU a funcionar. Mas não será domingo, ainda, que o senhor Moon acordará no ano de 2007. Quando lá chegar verificará que a sua vida estará transformada num pesadelo. Que vai dirigir uma orquestra cheia de virtuosos, cada um melhor do que o outro, mas onde ninguém se entende, que transforma o imponente edifício da ONU numa nova Torre de Babel. Vivemos num mundo desapiedado em que todos dependemos de todos, mas ninguém se preocupa com os seus vizinhos.
Nós, portugueses, vivemos, ainda, na doce e apesar de tudo aconchegadora ilusão de que os nossos problemas podem ser resolvidos por nós próprios. Mas não. Porque somos pequenos, os nossos políticos foram todos de férias e deixaram economistas e engenheiros a substituí-los, porque estamos integrados na EU e a Europa ainda anda à procura de rumo e porque os critérios políticos dos senhores do mundo são os da força bruta, as nossas instituições políticas são, apenas de faz-de-conta. Temos, pois, de lhes dar um desconto.
Pessoalmente, com a minha soberba impotência (igual à de todos os que sofrem os pecados dos grandes decisores nacionais e internacionais) tudo continuarei a fazer para que este mundo, um dia, seja um espaço que todos tenhamos gosto de habitar.
Por isso, e apesar de tudo, BOM ANO para todos os leitores do CM.
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