Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
5
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Mais um ano medroso

Dizem os especialistas que existem mecanismos de aviso para situações desta natureza. Admito que sim. (...) Mas o espectáculo a que um mundo inteiro assiste estupefacto seria o mesmo.

Francisco Moita Flores 2 de Janeiro de 2005 às 17:00
Acabou da pior maneira o ano findo. A tragédia no Índico, as imagens de horror que dia após dia revelam mais mortos, mais desaparecidos submergem-nos numa enorme vaga de espanto e mágoa, em que as pequenas histórias de salvamentos milagrosos não conseguem fazer sentido. Lá como cá, em face da presença brutal da morte, de cadáveres em putrefacção, de rostos transfigurados de dor, de olhares perdidos no medo, do caos incompreensível, procura-se com angústia um porquê para o terror. É preciso encontrar um culpado. Ou um funcionário da embaixada ou um tardio, ou inexistente, alerta da chegada do maremoto. É uma das perversões da nossa cultura antropocêntrica. Tem de haver sempre alguém, esse alguém é sempre um homem, ou na fase mais absoluta da negação, a ira (antropomorfizada) de Deus que explica o aparentemente inexplicável, esta falta de resposta à devastação limite de parte do mundo.
Dizem os especialistas que existem mecanismos de aviso para situações desta natureza. Admito que sim. Em vez de cem mil mortos talvez tivesse apenas morrido metade. Mas o espectáculo a que um Mundo inteiro assiste estupefacto seria o mesmo. Há um momento na tragédia que o valor dos números perde o sentido. Continuariam a não faltar pilhas de cadáveres, cidades destruídas, riscos de epidemias.
Perante o que se vê, aturdidos por esta brutalidade, fica escondido o culpado (desculpado). Na verdade ninguém pode mandar nos destinos da Terra. Duas placas tectónicas ajustaram-se num processo geológico dinâmico de profundidade e o poder da energia liberta foi indiferente aos desígnios mais arrojados dos homens. Bastou a Terra espreguiçar-se para que o antropocentrismo ficasse reduzido à sua insignificância. Como dizem os pescadores em relação ao mar, o medo fica na praia porque o mar merece respeito. Convencidos que a ciência, e sua capacidade de prever, é saber suficiente para domesticar a Natureza em função dos nossos interesses, por vezes mesquinhos, bem se poderia aplicar a mesma fórmula. Perder o medo, ganhar o respeito à inevitabilidade de vivermos num mundo vivo e que não se condiciona ao nosso mando e vontade.
Não sei se este sismo trágico tem alguma relação com as frequentes violações, provocações, maus tratos a que sujeitamos o planeta. Julgo que não. Mas não é por estar fora do nosso alcance de predadores sem limite que este sismo não é também um sinal. Da necessidade de repensarmos urgentemente os direitos do Homem articulados com os direitos da Terra. De sermos menos complacentes, mais severos no rigor com que se violam espaços, territórios, que não pertencem aos Homens. A devastação florestal de grandes partes do globo, a ocupação selvagem de linhas de água, a poluição atmosférica a ritmos suicidários, o desmembramento de ecossistemas sem rei nem roque em nome de uma falsa ideia de progresso que julga poder transformar em prazer a agressão mais gratuita.
Em Portugal, a este propósito, discute-se a incineração de materiais perigosos há décadas. Milhares de toneladas de resíduos mortíferos para os Homens e para o ambiente que andam espalhados por aí. Cada vez que um ministro procura uma solução levantam-se os coros de velhos do Restelo. Foi assim com José Sócrates, é agora com Nobre Guedes.
Não sei qual dos dois ministros tem razão no que respeita à técnica de destruição dos tais resíduos. Alheio-me dessa discussão. É menor no contexto do problema que se traduz na multiplicação de lixo que destrói e mata.
É certo que nada disto tem comparação com a tragédia do Índico. Mas é nas pequenas coisas que se manifesta a atitude de coragem para resolver as mais dolorosas. Porque não vale o medo. É preciso que se respeite a vida. E a morte.
Ver comentários