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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Mais violência

O poder político tem de perceber que este aumento de insegurança nas ruas (...) é antes de mais um problema da política.

Francisco Moita Flores 20 de Março de 2006 às 17:00
Os números tornados públicos pelo MAI no que respeita ao movimento criminal no ano de 2005 revelam que a violência incorporada na actividade criminal não pára de crescer, embora em termos absolutos a quantidade de crimes praticados no País esteja a diminuir.
Não admira. São sinais que se pressentem cada vez com mais evidência e desnudam uma sociedade que sobrevalorizou a competitividade e, por consequência, a agressividade e a violência. Deve-se ainda dizer que esta emergência criminal mais violenta tem os seus actores principais entre os jovens e, entre eles, não se pode deixar de sobrelevar a importância dos gangs que actuam particularmente nas regiões metropolitanas de Lisboa e do Porto.
A repetição desta informação – não é novidade de 2005 o crescimento da violência – remete-nos, por indução, para os graves acontecimentos que se estão a passar em França depois da revolta suburbana do final do ano passado. Os jovens apoderaram-se do centro de Paris e, mais uma vez, a Sorbonne vê-se invadida por estudantes e marginais fazendo eclodir confrontos com a Polícia.
O que é interessante, e preocupante, neste crescendo da violência juvenil é que tem como fundamento a incapacidade política para integrar e gerir expectativas de vida de jovens que assumem a exclusão e a marginalidade, e a violência daí decorrente, como formas de afirmação num presente sem esperança. Como se deixasse de valer a pena estudar porque ser licenciado não significa acessibilidade ao emprego, como se não valesse a pena apostar num emprego porque a precaridade não traz soluções de confiança. Nem o governo assegura essa confiança, sendo cada vez maior o exército de desempregados assim como o trabalho precário, e nem a oposição, particularmente a esquerda mais romântica e semeadora de utopias, consegue a condução política dos protestos, manifestações e revoltas. A decadência dos movimentos comunistas, hoje praticamente habitados por velhos militantes saudosistas e incapazes de leituras mais complexas dos novos desafios e o esvaziamento ideológico do militantismo mais radical, deixou sem rumo as contínuas massas de jovens que, confrontados com muitas impossibilidades, perderam a necessidade de serem revolucionários para dar lugar a bandos de revoltados.
Não vale a pena tapar o sol com a peneira. O crescimento na actividade criminal violenta que ocorre em Portugal não está assim tão longe das ondas de violência que hoje percorrem a França. Os gangs que em Portugal e nesta década começaram a ganhar uma visibilidade fora do comum são ‘irmãos’ dos mesmos gangs que nos finais de 80 e inícios de 90 do século passado assolaram os países europeus mais desenvolvidos que o nosso. Apenas estamos num patamar inferior deste movimento de revoltas individuais e colectivas.
Os desafios relacionados com uma nova forma de entender a escola, o trabalho, o emprego são cada vez mais tão decisivos quanto as peocupações relacionadas com o crescimento, o investimento, o défice. O poder político tem de perceber que este aumento de insegurança nas ruas, ainda que passe pela afinação da prevenção e repressão policial, é antes de mais um problema da política. Ou acode ao flagelo ou amanhã tudo será muito pior.
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