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Correio da Manhã

Opinião
2 de Julho de 2007 às 09:00
O sítio está verdadeiramente comovido. Imagine-se que o senhor presidente do Conselho é desde ontem o senhor presidente da União Europeia. Imagine-se. Antigamente, nos tempos que já lá vão mas que deixaram imensas saudades, tiques, práticas, hábitos e uma cultura salazarenta que está para lavar e durar, o senhor presidente do Conselho pastoreava este sítio e as chamadas províncias ultramarinas, isto é, do Algarve a Timor, passando por Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde, sem esquecer a administração de Macau.
Agora, o senhor presidente do Conselho não só comanda este sítio manifestamente perigoso e cada vez mais mal frequentado como 26 países da União Europeia. É natural por isso a comoção, a emoção, as lágrimas de alegria que escorrem abundantemente pelas faces de tantas pessoas, em particular as do costume, ou seja, da classe que partilha o poder e que decreta, à vez, os acontecimentos que podem ser classificados de desígnio nacional.
Foram assim as outras presidências, foi assim a Expo’98, foi assim o Euro’2004, é assim esta liderança semestral da Europa a 27. E como é um desígnio e temos de nos apresentar limpinhos e arranjadinhos perante o Mundo, a ordem está dada e quem não a cumprir é, no mínimo, um desgraçado traidor que os esbirros socialistas não deixarão de denunciar e punir severamente. As desgraças deste sítio vão, assim, entrar num rigoroso regime de poisio.
Os lacaios, bobos e arautos da corte já sonham com a enorme honra de o sítio e a sua esburacada e suja capital ficarem associados ao Tratado simplificado, melhor, à Constituição disfarçada desta Europa burocrática que foge dos cidadãos como o diabo foge da cruz. O aviso está dado e as vozes alteram-se quando alguém fala na solene promessa eleitoral dos cidadãos deste sítio serem chamados a pronunciar-se, pela primeira vez, sobre a União Europeia.
Referendo começa a ser uma palavra maldita e ninguém deve ficar admirado se o senhor presidente do Conselho, os seus digníssimos ministros e ajudantes e a enorme corte de esbirros começarem desde já a sanear, processar ou perseguir quem ousar lançar essa nódoa sobre uma Presidência que, além de ser um desígnio nacional, se quer pura, limpa e recheada de êxitos. A pobreza do sítio, o seu fraco crescimento económico, a sua miserável qualidade de vida, os atentados à liberdade de informar e ser informado e os ataques à liberdade de opinião são assuntos tabu.
Nestes meses de vaidades e mentiras a paz tem de reinar no cemitério e os coveiros estarão atentos para pôr na ordem os insurrectos.
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