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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Outubro de 2004 às 00:00
Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) é um político, não é um jornalista. Obviamente, tem a sua agenda, os seus interesses. Mesmo quem nunca com ele privou não tem qualquer dificuldade em reconhecê-lo à vontade na definição que, por vaidade, o próprio deve ter em tempos estimulado e que o estigmatizou: o de conspirativo e divertido fazedor de factos políticos. É assim que a pseudo-elite nacional o reconhece e trata, achando sempre, e em especial quando lhe convém, que ele está a fazer “números de circo”.
Mas não é assim que o País o vê, e daí a força de MRS. De facto, “o professor” assumiu uma extraordinária relevância perante os portugueses. Cerca de dois milhões o viam quase todos os domingos na TVI. E porquê? Porque MRS prestou um enorme serviço à democracia interessando pela política, pelas notícias, sua descodificação e leitura, de forma simples e directa, centenas de milhares de pessoas que não consumiam aquele tipo de informação. Pode reconhecer-se que MRS aproveitou aqui e ali para tirar dividendos, aliviar a bílis, e, em especial, atacar os políticos que ele acha desqualificados para as funções que ocupam. É normal, é da vida. Ainda agora, ao demitir-se da sua tribuna na TVI, certamente equacionou todas as dimensões, nacionais, partidárias e pessoais, do passo que deu. Ele sabia que ia convocar o plenário dos fantasmas que atormentam o Governo de Santana Lopes, mas não foi ele quem deu o pretexto a que tudo acontecesse.
De facto, estava em marcha uma movimentação global tendente a controlar a comunicação sobre matérias relacionadas com a actividade governativa, a coberto do apoio que num País como o nosso todas as grandes empresas necessitam de quem exerce o poder. Houve, portanto, uma iniciativa que não pode ser ignorada: o presidente da TVI, quatro anos depois, acossado pela RTL e interessado, em parte ou no todo, pela Lusomundo, passou a vislumbrar nos comentários do mais reconhecido rosto da sua televisão defeitos que nunca antes tinha visto! Noutras empresas, a outra escala, estavam em curso iniciativas semelhantes. Por isso, ao bater com a porta da forma estrondosa com que bateu, e como só ele podia fazer, MRS prestou um segundo grande favor a quem se interessa por uma informação independente: alertou para um problema e travou processos em curso. A sua força pessoal prestou um outro serviço à qualidade da Democracia. Não reconhecer isto, isso sim, é uma manobra de circo.
Jorge Sampaio, com o conforto da nova liderança socialista, está mais solto. Não é por acaso que a possibilidade de eleições antecipadas já aí anda, por enquanto apenas em notas de rodapé. Os erros do Governo são uma tentação, e a natureza política do Presidente revela-se, seja no último discurso à Nação, seja no peso que quis dar à audiência a Marcelo Rebelo de Sousa. O polémico Governo que ele investiu, num quadro institucional que lhe não permitia grande margem de manobra, não vai, a partir de agora, ter vida fácil. Sampaio já “limpou” o PS. Pode ser tentado, agora, a mexer no PSD. A solução para Santana Lopes é fazer aquilo que tentou dizer à saída da última audiência: governar bem. Tudo o resto é acessório.
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