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Correio da Manhã

Opinião
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Fernanda Palma

Matrix

Em ‘Matrix’, num universo concentracionário dominado por máquinas, alguns rebeldes afirmam que existe uma realidade distinta do mundo virtual a que todos os seres humanos tinham sido confinados, como meras fontes de energia bioeléctrica. No ‘Truman Show’, a vida de uma pessoa é, afinal, um ‘reality show’, em que todos os intervenientes são actores – incluindo os familiares do protagonista.

Fernanda Palma 24 de Outubro de 2010 às 00:30

Como sugere o filósofo alemão Volker Steenblock, estes filmes colocam a questão do conhecimento. Trata-se de apurar se podemos conhecer a realidade objectiva e se tal realidade existe mesmo ou é apenas o produto da imaginação de cada um ou até de um conjunto de mentes que nos controlam. Mas, para além desta questão filosófica, os filmes também suscitam, quanto a mim, um problema de justiça.

A prova de que existe mesmo um objecto para além dos quadros mentais subjectivos de cada um é muito difícil, porque não podemos deixar de projectar no conhecimento esses quadros mentais. Acreditamos, porém, que há uma realidade para além do sonho e que os controladores virtuais não podem suprimir essa realidade que é, aliás, condição de sobrevivência, como revela ‘Matrix’.

Com efeito, os sonhos são arbitrários e dependem sempre de factores incontroláveis. Se a vida não passasse de um sonho, como sugere poeticamente o dramaturgo Calderón de la Barca, que lugar existiria para os direitos e deveres e para a Justiça? Como nos poderíamos opor à mente que nos sonhasse (os poderes políticos, económicos e sociais)? Seríamos apenas criaturas imaginadas por outros.

Assim, reconhecer que somos seres independentes da concepção de uma cultura, de um poder ou de um Direito é um pressuposto da nossa humanidade. Na situação de crise económico-social que atravessamos, também é importante afirmar que o Direito não pode desrespeitar a realidade da pessoa, invertendo a máxima "se tu podes, deves" e trocando-a pela versão idealista "se tu deves, podes".

É a partir do poder real de cada pessoa numa sociedade que a responsabilidade penal se tem de formular, admitindo justificação ou desculpa onde o dever não tem como suporte uma efectiva capacidade de cumprimento e reconhecendo a responsabilidade como expressão de liberdade. Na perspectiva da resistência à crise geral, é importante definir um reduto intocável de valores de Justiça.

‘Matrix’ mostra que uma realidade péssima é melhor do que uma bela ilusão que alimenta os seres humanos, tornados fonte de energia das máquinas. No ‘Truman Show’, a plateia aplaude o herói, que descobre a parede do cenário que limita o seu mundo. Essa descoberta é um imperativo moral. Não podemos contar com uma realidade indiscutível – a descoberta de outras realidades é uma exigência de Justiça.

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