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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Fevereiro de 2003 às 00:00
1.Quando surgiu a história da Casa Pia, há dois ou três meses, as nossas elites começaram logo um interessantíssimo debate versando os limites da liberdade de informação. Ou seja, e assim à primeira vista, escandalizou-as menos a revelação de uma eventual rede de prostituição infantil (ligada a figuras públicas e centrada numa instituição estatal), do que a divulgação dos relatos e documentos que, com maior ou menor espalhafato, a comprovavam.

Agora que o caso entrou numa nova fase, com um ícone televisivo encarcerado e detenções "anunciadas" de outros notáveis, que se vão especulando a gosto, a discussão em curso aborda os critérios e a necessidade da prisão preventiva. A prisão preventiva? Têm a certeza de que é a principal prioridade? E por que não um referendo nacional sobre a decoração das celas da Judiciária? Não se fala no assunto, mas o branco é uma cor altamente incómoda, se comparado com os tons aquosos.

Face a estes escrúpulos com minúcias, que largam excessivo aroma a prudência, um marxista diria que as classes dominantes andam apavoradas. Mas não convém exagerar. Em períodos confusos, o medo da liberdade de imprensa é um reflexo vulgar nos políticos. Quanto ao resto, convivemos demasiado tempo com uma Justiça que castigava a ralé, maçava o cidadão comum e evitava beliscar as luminárias. Habituarmo-nos a uma Justiça democrática e eficaz exige demorada – e, se calhar, penosa – habituação.

E, de qualquer modo, é preciso calma, já que se trata de meros sinais. Mas, até ver, parece que os interesses dos poderosos e os objectivos dos tribunais deixaram enfim de caminhar lado a lado. O que, a consagrar-se, dará certo jeito: é que a maioria de nós não pode defender o bom nome e a dignidade em três "telejornais" simultâneos.

2. Mais por culpa da imprensa internacional do que dos EUA, o dia 5 de Fevereiro, a data para a apresentação das provas contra o Iraque na ONU, foi antecipado como se do Milagre do Sol se tratasse. A estratégia, regra geral, passava por elevar as expectativas a um ponto a que seria impossível de corresponder na prática. Aqui e ali, não fosse o diabo tecê-las e os documentos revelarem-se mesmo avassaladores, procedia-se de modo inverso e sugeria-se de antemão a trafulhice que os americanos se preparavam para aplicar ao mundo, mediante as prodigiosas técnicas de falsificação dos seus serviços secretos. Desse no que desse, o cenário estava montado.

Na quarta-feira, o secretário de Estado Colin Powell exibiu registos de escutas telefónicas, fotografias e gráficos – decerto o máximo que a cautela aconselhava e o mínimo que a diplomacia pedia. Todavia, e além de fazerem hesitar os srs. Kofi Annan e Chirac, as provas não serviram de muito. Quem já se convencera da urgência de um ataque a Bagdad, convencido ficou; quem antes preferia a "paz iraquiana", engoliu em seco e não mudou uma vírgula nas suas convicções. Ora se a influência dos factos é nula, ou quase nula, a matéria em questão pertence à esfera da fé. A fé na sinceridade do sr. Powell ou na honestidade do sr. Saddam. É uma escolha assim tão difícil?

3. A novidade é a dra. Clara Pinto Correia ter plagiado, praticamente na íntegra, dois artigos da revista americana "The New Yorker". A autora confessa-se "envergonhada" e a "Visão", que publicou as cópias por cá, suspendeu a coluna dela. Não gosto da dra. Clara, e justamente por isso não percebo o alarido. Por um lado, a senhora bebeu em boa fonte: passe alguma sisudez, a "New Yorker" é coisa decente, de longe melhor do que o aborrecido caldo que a senhora semanalmente nos servia. Por outro lado, um dos artigos em causa até é um elogio a Vaclav Havel, homem admirável, que assinou há dias uma carta de apoio a Bush – sobre quem, no 11 de Setembro, a dra. Clara escreveu que "andava a pedi-las". A dra. Clara também, mas este não será o melhor motivo.
albertog@netcabo.pt
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