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Correio da Manhã

Opinião
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29 de Novembro de 2005 às 17:00
O país político fervilha de excitação em volta das eleições presidenciais, embora ninguém pareça saber porquê. Os próprios candidatos não são pródigos em explicações. Cavaco apela ao regresso da confiança e do optimismo, mas no fundo busca a reparação de 1996. Soares tenciona ouvir os desconsolados, embora de facto reivindique um putativo privilégio. Alegre concorre para salvar a nação ou para irritar Soares (consoante o que acontecer primeiro). E os dois pequenitos da extrema-esquerda andam nisto pelo tempo de antena gratuito.
Felizmente, dirão os optimistas, há o Governo. Pois há. O exacto Governo que, na última semana, apresentou um Plano Tecnológico de influência soviética submeteu a discussão parlamentar o projecto já aprovado de um aeroporto esdrúxulo e, não se sabe bem de que forma, ainda conseguiu envolver-se numa polémica tão fundamental como a dos crucifixos nas escolas.
Depois, nas baixas instâncias do Estado, uma pessoa contempla os hospitais e depara com listas de espera, negligência, greves e manifestações. Olha o ensino e encontra ignorância generalizada, armazéns de criancinhas, greves e manifestações. Espreita a Justiça e não vê segredos, apenas prepotência, paralisia e os masoquistas da Judiciária a escutarem 16 mil telefonemas de Jorge Coelho (além de greves e manifestações). A polícia e a tropa transferiram o combate para a rua. A desvergonha autárquica dispensa comentários. O Fisco não cobra ou cobra mal. A Segurança Social arrasta-se em gemidos. A CP perde anualmente milhões de euros. A Carris, idem. A RTP é um sorvedouro inútil.
Um dos raros pedacinhos do Estado que funciona é a TAP. De uma pocilga em permanente falência, e num contexto internacional desgraçado, a companhia aérea lá vai reduzindo a dívida e apresentando lucros operacionais. Claro que a dívida continua imensa, que tais lucros, de resto escassos, têm caído, e que o negócio da Varig, a realizar-se, pode custar caro em vários sentidos. Mesmo assim, a TAP é, ou devia ser, um exemplo. Um exemplo que, fora o relativo sucesso, somente se distingue por ser liderado por um estrangeiro.
A nacionalidade não importa. Importa que Fernando Pinto não provém da rede de cumplicidades, partidárias ou não, que legitima a designação dos administradores públicos em Portugal. Por isso pôde despedir centenas de funcionários, melhorar o aproveitamento dos recursos humanos e materiais e, em larga medida, poupar-nos ao grotesco encargo que a TAP historicamente representava.
É pena que a eficácia do eng. Pinto seja um caso isolado. Por mim, podia ser a regra, nas empresas públicas e, mediante sufrágio universal, em S. Bento e em Belém. Talvez com um espanhol ou um irlandês na Presidência da República nós percebêssemos a real serventia do cargo. E o titular também.
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