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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Setembro de 2004 às 00:00
1. No encerramento da Festa do Avante, o dr. Carvalhas prometeu lutar para que este Governo não termine a legislatura. Desta vez, a espécie de argumento utilizado foi a sucessão de iniciativa presidencial. Mas, com franqueza: quando foi a última vez em que os comunistas desejaram que um Governo concluísse o mandato? Quando esboçaram um sinal – ligeiro que fosse – de aceitação do regime em curso?
Pois é: tal como a Festa do Avante, que insiste em marrar contra a abundância de festivais e concertos, o PCP encalhou algures num passado feliz e pré-democrático, que alimenta mediante a celebração de rituais e a evocação de inimigos imaginários. Faz lembrar aqueles soldados esquecidos nas selvas da Coreia, que se julgam em combate décadas depois de terminada a guerra.
Nos bons velhos tempos, o discurso comunista, paradigma da liturgia, procurava cumprir duas funções: subjugar os devotos e assustar os hereges. Normalmente, cumpria ambas. Hoje, o dr. Carvalhas fala e não acontece nada. No máximo, às vezes sucede que os devotos se desiludem (50 mil militantes perdidos desde 2000), e que alguns hereges se divertem. Mas, para a grande maioria da sociedade, o PCP tornou-se música de elevador, que toca para que ninguém a ouça.
Podemos aproveitar a analogia religiosa. No comunismo como na Igreja Católica, o instinto de sobrevivência ditou que as respectivas hierarquias recusassem mudar por receio do declínio e enfraquecessem porque não mudaram. Num e noutro caso, viram a concorrência, barata e “flexível”, arrastar fiéis em quantidade considerável. De um enviesado modo (ou nem por isso), o BE é a Igreja Maná do Partido Comunista.
A verdade, mesmo para quem se regozija com o estertor do comunismo “tradicional”, é que a miséria das alternativas não consola. E o quadro de intolerância, imprevisibilidade e fanatismo em que alastram chega a assustar. Tanto ou mais que o PCP. O PCP de há trinta anos, entenda-se.
2. Eu sei que o passado do sr. Putin não inspira confiança (o presente também não). E suponho que o assalto à escola de Beslan terá sido de facto uma tragédia e uma vergonha para as autoridades russas. Mas convém não esquecer o essencial: quem organizou o sequestro e, depois, chacinou centenas de pessoas a sangue-frio foram terroristas tchechenos e árabes. Estamos entendidos? Embora hoje seja vulgarmente aceite que o 11 de Setembro foi obra da administração Bush, o exagero retira vigor às teses conspirativas.
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