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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Junho de 2002 às 12:07
Pensava mudar-lhe o desenlace, dar-lhe um final agridoce, transformar os homens em personagens - e os bonecos animados em duendes, Ponta Delgada na Floresta Verde, o José Carlos em anjo-da-guarda. Desisti. De pouco vale a ficção quando a vida revela de si própria a melhor literatura.

O José Carlos é dono de uma livraria respeitada, e se é com pudor que reconhece o vício da playstation perante os intelectuais, não foi com menos responsabilidade que o espoletou dentro de si próprio. Tem uma filha de nove anos, um segundo casamento estável, e da forma como vier a gerir os poucos momentos com a criança depende a estabilidade do resto da sua vida.

Mas, quando se entregou aos jogos de vídeo, todo um mundo se lhe abriu adiante: não só assegurou o que lhe podia faltar do apreço da filha, como o tornou no miúdo mais castiço da rua, um homem de barba feita que reúne semanalmente um rancho de crianças no sofá, de gamepad na mão, e com eles troca cumprimentos estridentes se os avista à janela.

No dia do Portugal-EUA, foi nesse mesmo sofá que as crianças se sentaram, para ver juntas os seus últimos ídolos de carne e osso conquistarem o Mundo. Não vou perder tempo com o jogo: todos nos lembramos dos frangos de Baía, da indecisão de Oliveira e da tragédia nacional em que, feitas as contas, se tornou essa criancice da nossa participação no Mundial.

O que me interessam são as lágrimas de Miguel. Com apenas nove anos, o rapaz viu o jogo com as mãos no peito, retorceu-se como num estertor e desfez-se num choro quando o árbitro apitou e a derrota prevaleceu.

No final, Teresa, filha do dono da casa, tentou acalmá-lo na sua maturidade precoce de menina: aquilo era tudo uma patetice, nada mais do que um jogo de futebol, e melhor faria ele se ultrapassasse depressa essa fase estúpida da pré-adolescência.

Miguel olhou-a por um momento indecifrável, divagou o olhar para o José Carlos, voltou a olhar a miúda e atirou-se à playstation. Nem fez substituições, nem viu os golos em replay, nem sequer ligou as colunas: jogou com fúria durante dez minutos, retorceu-se como num estertor e gritou no final um longo suspiro. Batera um recorde pessoal: vitória de Portugal sobre os EUA, por 8.0. Depois foram todos lanchar.
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