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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Janeiro de 2011 às 00:30

Percebe-se a insistência da esquerda no chamado "caso BPN". Na ausência de qualquer ideia sobre a função presidencial, para a qual a generalidade dos candidatos não é manifestamente talhada, convém colorir o deserto político da campanha eleitoral com um arremedo de escândalo que provoque o habitual alarido e umas tantas páginas nos jornais.

Cavaco Silva vendeu as acções que tinha na Sociedade Lusa de Negócios (SLN), em 2003, com 140 por cento de lucro e pagou os respectivos impostos, como atesta a sua declaração no Tribunal Constitucional? É o suficiente para abalar a boa consciência do Bloco de Esquerda e dos alienados do costume que vêem no mercado e na banca, em particular, a origem de todos os males que afectam a sociedade. O lucro, como se sabe, é inimigo dos trabalhadores que recebem o seu ordenado do Estado ou de Deus, como diria o engº César, dos Açores, que tem dinheiro para distribuir pelos seus funcionários porque este lhe caiu dos céus, à margem dos contribuintes. Acha ele, claro!

É assim que Manuel Alegre, candidato do Bloco, cavalga a onda – embora confunda a margem de lucro do seu adversário (não foi de 40 por cento, como disse na Madeira), o que revela que o guião ainda não está totalmente afinado. Já a Manuel Alegre, candidato do PS, com o apoio declarado de José Sócrates, estranha-se esta súbita susceptibilidade em relação às operações financeiras de um homem que, na altura, não ocupava qualquer cargo político. Que diria Manuel Alegre se Cavaco Silva estivesse envolvido em negócios obscuros, com direito a vídeos em inglês e a uma série de perguntas por responder num despacho judicial? A crer na indignação que por aí jorra a propósito do BPN, presume-se que cairia o Carmo e a Trindade, por entre um coro imenso de acusações mortíferas e de exigências espectaculares. Para não falar das licenciaturas ao domingo, dos imbróglios do amigo Vara, das casinhas mal--amanhadas e ainda pior explicadas e de todos os outros casos que o PS cala e consente – e, em muitos casos, defende.

Como seria de esperar, não foi preciso esperar muito para que surgisse o "caso BPP" – um caso sem relevância que mostra, antes de mais, a miséria de uma campanha eleitoral onde só um dos candidatos concorre, de facto, a Belém. Podiam ser dois mas, infelizmente, o Bloco, o principal apoio de Manuel Alegre, tem outros objectivos em mente.

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