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Correio da Manhã

Opinião
5 de Janeiro de 2008 às 00:00
Com o atraso substancial que o futebol português acumulou nos últimos anos, por culpa de uma mentalidade retrógrada, que mina afinal o País de lés a lés, não vai ser fácil observar, em 2008, profundas consequências das alterações que estão a ser preparadas nos planos legislativo, regulamentar e regimental.
Só com a ajuda da recuperação económica de Portugal e também com uma revolução de matriz ética na sociedade portuguesa será possível perceber alguns avanços.
Seja como for, 2008 vai ser um ano importante.
No Desporto em geral e no Futebol em particular.
No âmbito de modalidades que necessitam de uma mão reformadora, como é o caso gritante do futebol, os êxitos de natureza desportiva geram euforia e estados de alma positivos mas causam, quase sempre, deformações da realidade.
Neste contexto, é sempre com muita expectativa que se aguardam competições como um Campeonato da Europa ou uns Jogos Olímpicos.
Os golos, as vitórias, o pódio e as medalhas preencherão as conversas lá mais para o meio do ano.
Ficará a saber-se, também, se Scolari continuará a gozar a sua ‘reforma dourada’ em Portugal ou se partirá em busca de outras conquistas.
A entrada em vigor do Regime Jurídico das Federações, que fará correr muita tinta neste primeiro trimestre, já começou a suscitar a revolta das Associações Distritais, cujo papel no fomento da prática futebolística, no caso do desporto-rei, terá sempre de ser superior ao peso na hierarquia do futebol.
Vai ser necessária coragem e determinação políticas para fazer cumprir a lei, o que até hoje não tem sido conseguido na plenitude.
A suspensão da utilidade pública não deve ser apenas um instrumento teórico. A violação das regras de organização e funcionamento das federações merece tolerância zero. Basta de tolerância para o regime da intolerância e da ‘demeritocracia’. A utilização de dinheiros públicos carece de fiscalização atenta e apertada.
O Conselho Nacional do Desporto (que vem ocupar o lugar do defunto e inoperante Conselho Superior de Desporto), cuja duração dos mandatos é de dois anos, passa a ter competências acrescidas: vai dirimir, provisoriamente, eventuais conflitos que venham a surgir entre as federações desportivas e as respectivas ligas profissionais, no que concerne ao número de clubes que participam na competição profissional e alcançará a organização da actividade das selecções nacionais.
A observação dos princípios da ética desportiva e os combates à violência, ao racismo e à xenofobia são competências do CND.
Até agora, estes Conselhos não eram mais do que organismos-fantasmas. Uma forma de desresponsabilização política que não pode continuar. Quem tutela a pasta do Desporto não pode pactuar com a inacção. É preciso pôr mãos à obra. O Código da Ética Desportiva e o Livro Branco sobre o Desporto não devem ser ignorados.
Este vai ser o ano do ‘Apito Dourado’. É muito difícil acreditar em decisões justas e acertadas. No plano da justiça desportiva pode muito bem acontecer a Comissão Disciplinar da Liga decidir num sentido e o Conselho de Justiça da FPF noutro. Estes dois comboios não podem continuar a andar a velocidades diferentes.
Tudo se conjuga para que 2008-09 marque o começo de uma nova era. Com as reformas e as sanções que tiverem de ser aplicadas.
Estamos fartos de dirigentes moralistas e justiceiros. Mas estamos fartos, também, de ser enganados. O futebol português tem de começar a ganhar a batalha da credibilidade em 2008.
Benfica e Sporting têm uma decisão de enorme relevo a tomar: se querem ser clubes competitivos à escala nacional e internacional. Se querem e se podem. Para isso, é bom que usem a linguagem da verdade. Que olhem para dentro de si próprios antes de encetarem a clássica e entediante caça às bruxas.
É preciso limitar o acesso de jogadores estrangeiros às competições nacionais. Marcar um tempo de selectividade.
Atenção à qualidade do jogo.
Atenção ao preço dos bilhetes.
Atenção às fórmulas de atracção de adeptos aos estádios.
DEFENDAM O FUTEBOL!
Os árbitros têm de se dar ao respeito para serem respeitados. Há muito a fazer neste sector.
Uma palavra final para a imprensa desportiva: tem sido muito responsável pela manutenção dos costumes. Se não mudar nada este ano, o futebol bem pode preparar-se para ‘fechar as portas’.
Nota – Morreu Homero Serpa, um dos bons ‘jornalistas desportivos’ que Portugal conheceu. Os mais jovens já só têm de ‘A Bola’ a imagem do jornal tablóide, que uns gostam e outros não. Mas ‘A Bola’ foi mais do que um jornal; foi uma das marcas de universalidade do País, respeitada como poucas. Foi o papel que levou as primeiras letras a muita gente. Foi um manual de multiculturalidade. Foi o espaço de união e de identidade de muitos portugueses. Foi o passaporte de diversas comunidades lusas a trabalhar no estrangeiro. Marcava a diferença pelo formato e pelo conteúdo – e o sucesso deveu-se, sobretudo, a uma ‘grande equipa’ de jornalistas da qual fazia parte Homero Serpa. Era um ‘carregador de piano’ extraordinário. E teclava as teclas da máquina de escrever como Rachmanov teclava nas teclas do piano.
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