Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
28 de Março de 2005 às 17:00
O artista tem um sítio na internet que abre com um desenho de lata de tinta e uma apresentação: “Banksy, especialista de pintura de exteriores”. Tranquiliza-me que um artista se acomode com o risco de passar por simples trolha que dá demãos em fachadas. Sabe-se como Adolfo Hitler resolveu mal o facto de ser um nabo em desenho, o seu primeiro sonho antes de borrar a pintura na política. Este Banksy, aparentemente, é humilde.
Ele é um graffiter inglês, de Bristol, bastante conhecido por encher paredes com a sua arte. Este mês, Banksy passou a personalidade mundial, muito falado nos jornais, pela razão que ele também confessa na internet: teve exposições no Metropolitan, no Museu de Arte Moderna (o célebre MoMA), no Museu de História Natural e no Museu de Brooklyn, todos em Nova Iorque. Do nunca visto, exposições simultâneas nos mais prestigiados museus da capital do mundo! Para quem se assume como “pintor de exteriores”, entrar nos mais fechados dos museus é obra. Que passa a obra-prima quando se vem a saber que Banksy entrou sem ser convidado.
De facto, Banksy fez a progressão inversa dos ladrões de museus. Estes têm uma trabalheira para tirar uma peça de dentro do museu para fora. Banksy, com as mesmas precauções para que ninguém veja a manobra, levou as suas peças da rua para dentro dos museus.
No Metropolitan, pôs um quadro de uma mulher com máscara de gás. No MoMA, a pintura de uma lata de conservas de sopa, ao estilo de Andy Warhol. Em Brooklyn, numa sala dedicada à Revolução Americana, pespegou um soldado janota do séc. XVIII, com falsa cabeleira e dragonas, tudo muito à época, excepto a modernaça lata de spray na mão canhota. E no Museu de História Natural, cenário de tantos filmes sobre a tentativa de roubar um grosso diamante ou a peça rara egípcia, Banksy colocou, numa caixa de vidro, um escaravelho com antenas e mísseis, como se acabado de desembarcar de Hollywood.
Se no Metropolitan a mulher com máscara foi logo topada, a ousadia nos outros resultou. No MoMA, a sopa em lata ficou exposta cinco dias. Cinco dias com guardas guardando a obra criminosa e frequentadores, mão no queixo, apreciando. “Olha, um Warhol que eu não conhecia... Deixa ver a assinatura, não, não é do velho Warhol, mas não lhe fica atrás. Que beleza...”
Não sei se depois das magníficas ousadias, o artista (que continua anónimo, para além do nome de guerra e de arte) ficava para saborear a partida. O que sei é que Banksy me reconciliou com os criminosos. Hoje, o bandido é sempre um bruto, arranca uma carteira, ao murro ou com a ameaça da naifa, em vez de a volatizar com a gentileza dos antigos carteiristas formados na Universidade de Campanhã. Os carteiristas de antanho só iam para os eléctricos depois de passar no exame dos guizos. Treinavam em casacos com alarmes nos bolsos e só depois de sacarem silenciosamente uma carteira na profundeza de um bolso com cinco sininhos é que passavam à acção. À arte. Saúdo em Banksy esse mesmo desejo de ser marginal e, apesar disso, profissional consciencioso.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)