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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Agosto de 2004 às 00:00
Com a esquerda entretida nas suas guerras intestinas e obcecada com o objectivo de pendurar na sua sala de troféus a cabeça do PGR, Santana Lopes lá se vai ajeitando à cadeira do poder.
Percebeu que esta esquerda está preocupada com outras guerras e mais lhe vale preocupar-se com a imagem do que com a governação.
E trata com desvelo esta sua prioridade. Não inventou nada.
Importou, apenas, modas que há muitas décadas correm por outras paragens.
Onde qualquer especialista transforma um demónio num anjo e o vende como tal num abrir e fechar de olhos.
Começou por contratar uma equipa de peritos em transformar maus governantes em governantes aceitáveis ou até bons, compondo-lhes o discurso, dizendo-lhes onde e quando devem falar ou estar calados, como fazer más notícias parecerem boas, as razoáveis muito boas e as simplesmente boazinhas excelentes.
Mas ainda não estava satisfeito. Viveu sempre da imagem, com razoável êxito, e sabe portanto do que se trata. O terreno é fértil num País arreigadamente cultor das aparências. Decidiu-se, por isso, agora a reforçar esta faceta das suas preocupações como 1.º ministro e contratou mais uma assessora para assuntos da imagem.
O nosso primeiro passará assim a ter quem o acompanhe ao barbeiro, lhe escolha fatos, camisas, gravatas, sapatos, peúgas, águas de colónia, restaurantes, bares e provavelmente até as companhias, para que estas não lhe estraguem a fotografia.

Neste mundo, cada vez mais feio, termos quem, por artes mágicas, nos transforme o insuportável em imagens simplesmente deliciosas para a vista não é mau. O pior é o resto.
Agora quando os nossos governantes nos aparecerem á frente teremos de os descascar completamente. Radiografá-los. Recorrer à imaginação para os encontrar por detrás do disfarce. Tirar o sebo às suas palavras. Descodificá-las. Adivinhar quem lhas sussurrou e com que finalidade. É um novo jogo de sociedade.
Não poderemos nunca esquecer, quando o virmos ou ouvirmos, que não estamos perante o Santana Lopes que nos habituámos a conhecer, mas perante o ideal de 1.º ministro dos seus ‘spin doctors’ (alcunha generalizada para agentes especializados em disfarces e maquilhagem) ou o ideal de homem da sua assessora de imagem.
Iremos ser governados, não por um ser real, mas por uma estranha criatura virtual, produto da fantasia e habilidades de uma equipa paga para lhe criar estados de espírito e lhe pôr em cima uma fatiota que supostamente o proteja, promova e leve os seus fãs ao delírio como se fosse um artista rock em festival permanente.
Para os que ainda não sabem com que ingredientes vai levedando o populismo de Santana aqui fica este modesto presente com uma embalagem tão cuidada como as dos melhores bombons Belgas. Que se deliciem e lhes faça muito bom proveito.
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