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Correio da Manhã

Opinião
8
6 de Julho de 2004 às 00:00
1 Considerando a realidade em que se encontram as Selecções Nacionais, subjugadas à ditadura imperial dos clubes, que comem tudo e não deixam nada, o segundo lugar de Portugal no Euro’2004 tem de ser considerado, mesmo assim, um grande resultado. Nas minhas previsões, a Selecção Nacional, fundamentalmente por poder tirar partido de jogar na qualidade de país anfitrião, cabia entre os quatro primeiros, o que significa que, em primeira análise, a missão ficou cumprida.
O que não estava nas minhas previsões, nem de nenhum analista dos quatro cantos do Mundo, nem sequer de qualquer cidadão grego, mesmo do mais optimista, é que a Grécia fosse capaz de uma trajectória tão firme e gloriosa.
Se Portugal encheu o coração durante três semanas, o que se pode imaginar do coração da Grécia, que se sagra campeã da Europa em vésperas da realização dos Jogos Olímpicos?
Quer dizer: depois de ter ultrapassado a 'barreira psicológica' dos quartos-de-final (frente à Inglaterra) e conseguido vencer, a seguir, a Holanda; depois de ter passado a provação de perder, na partida inaugural, com os helénicos e aperceber-se da sua forma muito típica de actuar, é óbvio que, nestas circunstâncias, não ganhar o jogo decisivo corresponde à sensação de que algo ficou por completar.
2 A Grécia não é uma grande nação futebolística (torna-se campeã da Europa, ironicamente, quando o seu futebol, do ponto de vista interno, está num caos) mas Otto Rehhagel conseguiu formar um conjunto fortíssimo, que não joga apenas defensivamente como agora se quer fazer crer. Recuso-me a aceitar a ideia de que a Grécia foi a campeã do anti-jogo. Digo, fundamentalmente, que Portugal perdeu a final perante uma grande equipa: organizada, concentrada e suficientemente talentosa para poder ganhar jogos.
3 Depois de tanta luta, depois de tanto empenho, depois de tanta dedicação, quase impostos por um povo sequioso de uma manifestação que nos colocasse longe das habituais depressões, não posso deixar de dizer que Portugal não esteve bem na final.
Rehhagel, velha raposa do futebol europeu, venceu claramente Scolari, um técnico que ainda está, muito naturalmente, à procura de perceber a realidade do futebol do Velho Continente.
Zagorakis e Seitaridis controlaram os movimentos de Figo; Fyssas e Giannakopoulos fizeram o mesmo em relação a Cristiano Ronaldo. A Grécia, pelo seu povoamento denso nos primeiros 40 metros de terreno, transmitiu a ideia de uma equipa com mais unidades. Aliás, os gregos limitaram-se a confirmar a sua coerência de jogo, actuando basicamente atrás da linha da bola e em – como dizer? – contra-ataques devidamente organizados.
4 Scolari não conseguiu arranjar antídoto para isso. Não teve liderança em campo. Não teve, desta vez, um líder sobre o miolo. O triângulo de ferro, capital no jogo dos portugueses, por ter a capacidade de se tornar equilátero, escaleno ou isósceles, dada a sua flexibilidade, não funcionou como noutras situações. Provavelmente, já cansados de suportar todo o peso da Selecção, nos seus movimentos defensivos e ofensivos, Costinha, Maniche e Deco estiveram longe de ser brilhantes. A lesão de Miguel, o único português que se ia mostrando capaz de estabelecer algumas rupturas pelo lado mais explorado por Portugal (a ala direita), foi um momento muito infeliz e marcante para a Selecção. Com o nulo do intervalo e face à inoperância do ataque, com Pauleta muito desapoiado e ele próprio menos móvel do que o costume, Scolari entendeu não alterar a filosofia de ataque. A Grécia chega ao golo – e o que faz Scolari? Tira Costinha e coloca Rui Costa em campo. O milanista até entra bem no jogo, mas tornou-se claro que o seleccionador achava que não era necessário arriscar mais. Na parte final do encontro, substitui Pauleta por Nuno Gomes. Quer dizer: tardiamente e num jogo em que o adversário defendia às vezes com sete unidades, o seleccionador entendeu que não era preciso actuar com dois jogadores em simultâneo na área da Grécia. O jogo pedia Postiga e Nuno Gomes, depois de verificada a 'exclusão' do açoriano. Erro crasso.
5 Independentemente das incidências da final, que só trago à colação porque ontem não foi possível publicar a minha opinião sobre ela, gostaria de dizer ainda que, como muito bem sublinhou Jorge Sampaio, este Euro’2004 projectou muitos méritos. E a grande responsabilidade que criou é não afastar, com os desentendimentos habituais, um novo público que o futebol pareceu ter adoptado, nomeadamente entre jovens e mulheres. Como, de resto, já tinha acontecido, em menor escala, no Mundial de sub-20, em 1991.
6 O povo português é um dos grandes vencedores deste Euro’2004. Porque se Scolari foi o seleccionador oficial da Selecção, o povo foi o seleccionador de Scolari, que escrutinou a maioria das 'opções' dos adeptos. Ao brasileiro faltou ouvido para a questão dos dois pontas-de-lança.
7 Quanto ao impacto económico, é cedo para contas, embora se saiba que experiências anteriores não sejam muito significativas do ponto de vista do PIB.
Quanto ao turismo, acredito nalgum retorno. Mas não acredito no discurso grandiloquente de quem quer fazer, já, deste Euro, um grande sucesso económico.
Ponto único: daquilo que se pôde observar, e tirando algumas pimbalhadas que as televisões estrangeiras exploraram, penso que exportámos uma boa imagem do País.
8 Embora acredite pouco nisso, seria bom que este Euro ajudasse a refundar alguns princípios do nosso futebol. O Euro’2004 não resolveu, como que por encantamento, os problemas estruturantes, legais e orgânicos do futebol nacional. Aquilo que sempre disse e volto a dizer, mesmo com Portugal vice-campeão da Europa, é que há sempre tempo e espaço para evoluir. Fazer cada vez melhor.
9 Os defensores de que não se deve tocar nalgumas feridas sensíveis – os cancros do subdesenvolvimento – não se apercebem que são os primeiros fautores de um certo miserabilismo intelectual. Eles costumam dizer: 'vamos provar que somos capazes de fazer'. E eu pergunto: porque não haveríamos de ser capazes? Porque não haveríamos de ter capacidade de realização e de ser capazes de construir casas, estradas, estádios de futebol, aeroportos, centros comerciais e culturais, etc.? Porquê? Somos chimpanzés? Não, não somos chimpanzés – e essa colagem zoológica nunca haverei de fazer, mesmo que outros continuem a fustigar-se com ela.
10 Estamos de volta à realidade, espero que com a convicção de que não somos só verdadeiramente portugueses nos jogos de futebol que envolvem, em momentos especiais, a Selecção Nacional. No meio do Euro, ironicamente, que não conheceu problemas graves de segurança, rebentou uma crise política. Sampaio não estaria, agora, preocupado se a alternativa santanista fosse alicerçada numa oposição com uma liderança indiscutível.
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