Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
16 de Setembro de 2004 às 00:00
Ao início da década de 90, a maioria dos países da União Europeia preparou-se para a “batalha” da introdução da moeda única em mercado aberto, bem como para a competitividade internacional decorrente da globalização.
Hoje, verifica-se que a maioria não terá ido tão longe quanto era necessário. Contudo, pior ficaram os poucos, como Portugal, que nada fizeram para se acautelar.
No nosso caso, ao adiamento das indispensáveis reformas do Estado aliou-se um indesculpável laxismo na gestão das contas públicas. O diagnóstico em 2002 era evidente. Eram urgentes uma política orçamental rigorosa e reformas estruturais dos sectores nucleares. Tudo isto, inevitavelmente impopular.
Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite falaram verdade, mas não foram completamente eficazes na terapêutica. O discurso “da tanga” foi excessivamente prolongado e a intervenção orçamental tímida.
Agora, o actual Governo só tem duas saídas: continuar uma inércia, bem intencionada mas condenada ao insucesso, ou ir mais além, levando até ao fim as reformas necessárias.
A primeira opção conduziria a um resultado final igual ao do Governo do Bloco Central (patriótico, bem intencionado, mas de má memória).
A segunda opção, terá uma leve hipótese de reeditar o reformismo cavaquista, cujos resultados marcaram, pela positiva, a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva.
Aparentemente, o Governo de Santana Lopes optou, e bem, pelo segundo trilho, mais arriscado mas com melhores garantias para o futuro do País.
A nova lei das rendas, as novas portagens e as novas regras de financiamento do sistema de saúde são reformas difíceis mas inevitáveis.
A primeira significará, não só mais e melhor habitação acessível a todos, como a reabilitação das nossas cidades degradadas. A segunda resolverá os problemas decorrentes da lógica do “faz agora e pague depois”, que nos conduziu a esta situação económica difícil. A terceira permitirá salvar um serviço à beira da falência e assegurar cuidados de saúde quase gratuitos para quem mais necessita.
Todavia, para que o cidadão comum compreenda e apoie estas políticas, outras terão de aparecer. Umas, também impopulares mas inultrapassáveis. Outras, mostrando que os sacrifícios são para todos, começando pelo Estado.
Um Hospital, uma Administração Distrital de Saúde, uma Administração Regional da Segurança Social podem ser geridos por três, em vez de o serem por cinco administradores. A nossa costa precisa de ser patrulhada, é certo, mas ninguém compreende que o seja por submarinos comprados a peso de ouro.
O português médio está preparado para pagar mais por uma consulta, mas tem o direito de ter médico a toda hora, consulta quando o deseja e a ser operado enquanto está vivo.
Se se conseguir, até à Primavera, equilibrar estes dois pratos da balança, terá valido a pena termos tido a honra de ver um português presidir à Comissão Europeia. Caso contrário, que Deus nos ajude. Se puder, o que duvido...
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)