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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Julho de 2006 às 17:00
O Governo de José Sócrates tem sido obrigado a ser reformista. Nem sempre tem utilizado a dose e as opções mais acertadas, mas tem sempre sabido lançar campanhas de promoção e divulgação da sua obra.
Neste particular, nem o censuro. Não é possível governar sem procurar informar, mobilizar e convencer, a cada momento, os cidadãos do trabalho que está a ser feito.
É, contudo, necessário evitar que a ânsia de propagandear faça com que as decisões passem a ser as que apenas servem a construção de uma boa imagem, em detrimento das que têm a ver com a prossecução de objectivos de interesse geral.
Julgo que foi isso o que se passou com a ministra da Educação, relativamente às anunciadas provas de aferição a realizar nos 4.º e 6.º anos de escolaridade.
Na semana passada, a propósito da precipitada decisão de permitir a repetição de exames de Química e Física do 12.º ano, a ministra havia já delapidado muito do capital de crédito granjeado no último ano.
Assim, a liderança política do Governo preparou um contra-ataque que restabeleceria a normalidade: era urgente uma iniciativa política que refizesse a imagem de exigência de Maria de Lurdes Rodrigues. Daí ao anúncio de novos exames para um milhão de estudantes foi um ápice.
Sou dos que penso que foi uma desgraça para gerações de jovens a opção política laxista que determinou o fim das provas de avaliação anual em todos os graus de ensino.
Sob o pretexto de que tais provas eram um ónus demasiado traumatizante para o bem-estar psicológico dos jovens estudantes, institucionalizou-se uma permissividade que acha normal passar alunos de ano com aproveitamentos medíocres.
Porque assim penso, lastimo a decisão ministerial. Ao instituir provas que não visam avaliar os alunos, que não interferem com as suas classificações finais, mas cujo objectivo é somente “julgar” docentes, programas e escolas, a ministra está a seguir um caminho errado.
Exames a brincar redundarão numa enorme brincadeira. Os alunos, sabendo que é indiferente a sua ‘performance’, vão encará-los de uma forma displicente. Os professores e as escolas tudo farão no sentido de que as classificações sejam elevadas, ou não estivesse em causa, em exclusivo, a sua imagem e o seu prestígio.
É paradoxal que neste reino do ‘faz-de-conta’ tal medida tenha sido saudada com entusiasmo militante pelas associações de pais e até por sindicatos de docentes. Ou não perceberam ou gostam mesmo deste ‘status quo’ de fachada.
Finalmente, as provas em apreço serão só a Português e a Matemática! Com todo este afã à volta destas duas disciplinas, um dia destes estaremos a implementar um programa de emergência para o Inglês, a História e a Biologia!!
É pena, a ministra da Educação já mostrou que sabe fazer. Escusava era de mergulhar na pior lógica da política de forte inspiração partidária. Não havia necessidade…
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