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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Janeiro de 2006 às 17:00
Dou de barato que os magistrados não pediram dados confidenciais à PT sobre cidadãos que não estavam sob investigação. Mas o facto é que esses dados tornaram-se públicos e, isso, só porque esses magistrados foram uns irresponsáveis. Uns não profissionais. Não, não falo de magistrados em geral, como gostariam os irresponsáveis que eu fizesse para se escudarem por trás de gente com tino. Há magistrados admiráveis. Não é desses que falo – esses são como os bons árbitros, não se dá conta deles. Falo dos que causaram a cena macaca. Dos que deixaram cair na praça pública dados privados de mais de 200 cidadãos, por incúria ou ignorância.
Recapitulo o que se passou, traduzindo o que a Procuradoria-Geral da República já admitiu. O Ministério Público, com a devida autorização de um juiz, pediu à PT a facturação detalhada de um telefone fixo de um arguido, Paulo Pedroso. Ainda bem que a lei se dá meios para que justiça melhor se faça. Acontece, porém, que o pedido especificava querer essa informação em ficheiro electrónico.
Eu nunca precisei de pedir a minha facturação à PT, mas se o fizesse pediria em papel. Se alguém me dissesse “porque não pedes em ficheiro electrónico?”, eu começaria por perguntar: “E o que é vir em ficheiro electrónico?” Isso era eu, que sou ignorante em muita coisa mas não sou um irresponsável. Os do Ministério Público que fizeram o citado pedido são as duas coisas, ignorantes e irresponsáveis, não perguntaram.
Ora, tendo sido feito o pedido de ficheiro electrónico, ficheiro electrónico veio. Este é feito por cliente e não por linha. Assim, em vez da factura detalhada do tal arguido, Paulo Pedroso, veio a factura de todas as linhas do cliente – que é o Estado – que contratou a linha telefónica dele. Duzentas e tal, entre as quais as do Presidente da República.
A PT nesses casos mete um filtro para proteger as informações que estão a mais. Mas é fácil violar esse filtro. Como disse o director do ‘Público’, José Manuel Fernandes, “eu próprio tenho, no computador, uma cópia desse ficheiros”. Como tem quem quer. Com a PT, empresa que não protege os clientes e até os prejudica, porque não arranjou as devidas defesas electrónicas, a questão é fácil de resolver. Há mais empresas no mercado. O problema é com os irresponsáveis do Ministério Público. Aqueles que criaram esta cena macaca porque fizeram uma exigência, de que não quiseram saber as consequências.
Há quem diga: quem não deve não teme. Só diz isto quem ou é eremita (e estes geralmente não telefonam) ou não tem imaginação. Será difícil pensar em situações comprometedoras, profissionais e pessoais, ou do domínio do simples porque sim, que cada um de nós, gente honesta embora, não gostaria de ver no domínio público?
Dou o meu caso. Ontem, na capa do ‘Diário de Notícias’ apareceu um indivíduo de pernas abertas e braços abertos como um pescador a dizer que apanhou um robalo de metro e meio. A legenda diz que é Souto Moura – olha, um dos que tem os telefonemas expostos na lista que a Procuradoria deixou fugir. Eu não gostaria nada que se soubesse que ele me tinha telefonado, nem que fosse uma só vez.
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