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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Setembro de 2009 às 00:30

Também temos visto de tudo: os excepcionais que patinam como Chris Patten, ou os vulgares que se excedem como Jacques Delors. Durão Barroso não será nem uma coisa nem outra, mas é o português que mais alto voou nas instâncias comunitárias. Bem sei que durante anos os ingleses se fixaram numa candidatura lusa para presidente da Comissão: Guterres, Vitorino e Barroso foram bafejados por essa sistemática preferência. Se fossem os nacionais a votar tenho a certeza de que seria Mário Soares o escolhido, mas não há muito espaço para grandes líderes em Bruxelas.

Mesmo admitindo que Barroso foi escolhido por circunstâncias fortuitas: a desistência do primeiro--ministro do Luxemburgo, o facto de ter sido apoiante de Bush e Blair na questão do Iraque, o certo é que utilizou criteriosamente o seu primeiro mandato à frente da Comissão para tornar incontornável uma recandidatura. Mais: ninguém se quis apresentar contra ele nos restantes 26 países e nas respectivas famílias políticas. Só o PS francês e o também galo Cohn--Bendit arremessaram sem força o slogan Stop Barroso.

Ora tantas facilidades dão que pensar. Dentro de semanas repete-se o referendo na Irlanda. Uma nova vitória do Não acrescentaria crise à crise. O Tribunal Constitucional da Alemanha não autorizará novas transferências de soberania sem uma revisão da Lei Fundamental. A passividade da Comissão não será tolerada por muito tempo caso a estagnação continue. O segundo mandato será mais exigente do que o primeiro.

INFLUÊNCIA DE DEBATES E SONDAGENS

Debates e sondagens

A questão da influência dos debates e das sondagens nos resultados eleitorais voltou. Antes dos debates os números apontavam para um ‘empate técnico’ entre o PS e o PSD. Depois destes, o PS passou para a frente nas sondagens com seis pontos de avanço a uma semana do dia de reflexão. Mas coloca-se agora a pergunta: se os debates tiveram influência nas sondagens, terão as sondagens influência nas intenções de voto?

SALTOS ALTOS SINDICAIS

Há quem acuse os sindicatos de falta de glamour e de viverem ainda no modelo industrial manchesteriano novecentista. Pois nem de propósito. O último congresso das Trade-Unions britânicas aprovou uma moção regulamentando o uso de saltos altos nas empresas do terciário em que andar na moda possa acarretar erguer os gémeos com a ajuda de elegantes sapatos. Saltos altos só por gosto…

HÁ UM ANO NISTO DA CRISE

Há um ano que a crise financeira internacional foi declarada com a falência do banco Lehman Brothers. Passado este tempo, pouco se avançou na compreensão do fenómeno. O subprime, os produtos tóxicos, a ‘ganância’ dos gestores, mesmo as fraudes como as praticadas por Madoff, não passaram de desculpas de mau pagador, no sentido literal. Essas explicações minaram ainda mais o crédito das escolas de economia que não conseguiram nem prever nem tratar o fenómeno.

PRIMEIRO-MINISTRO ELEITO, DEPUTADOS NOMEADOS?

O culto da imagem (que será feito do verdadeiro culto da personalidade?) tem levado, um pouco por todo o lado, à eleição do primeiro-ministro nas legislativas. Ora, tal não deixa de ser uma perversão do sistema de funcionamento das instituições democráticas, que, nem por ter os favores da técnica, dos instrumentos de comunicação e da opinião popular, é menos condenável.

Essa tendência para a eleição directa do chefe do Governo começa por nem assegurar a estabilidade de uma legislatura e dificulta a escolha de soluções que se podem revelar mais sensatas e racionais no decurso desta, como já o resultado da próxima votação poderá demonstrar entre nós. Depois trata-se de um caminho que leva à usurpação de facto dos poderes do PR e ainda da AR. Não se pode pretender eleger directamente o PM e depois andar a criticar os deputados por serem seguidistas como se fossem nomeados. Escolham.

A SEGUIR: A ÚLTIMA SEMANA DA CAMPANHA ELEITORAL

Não deixe que o distraiam n Para se distrair vá ao cinema ver o filme do célebre argumentista Kaufman em estreia como realizador. ‘Sinédoque’, um filme difícil como a vida n Para se enervar, siga a reunião do cada vez menos selecto G20, desta vez nos EUA, para tentar responder à crise que ninguém previu e que ninguém parece capaz de resolver n Os presidentes sob escuta: depois de Sampaio há mais?

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