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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Julho de 2006 às 17:00
Digam-me lá se não vivemos num verdadeiro País das maravilhas.
Andamos para aqui a discutir o pântano e a tanga, o PIB e o défice, o desemprego e o futuro da Segurança Social. Andam os portugueses a contar todos os cêntimos.
E, entretanto, dois bancos nacionais anunciam-nos lucros (apenas no 1.º semestre deste ano) da ordem dos 596 milhões de euros.
Tudo moeda boa. Porque nos circuitos bancários não há moeda má. A moeda que cai nos cofres dos bancos reproduz-se como ratazanas. As necessidades dos outros incentivam-na a uma furiosa procriação.
Os premiados com este verdadeiro euromilhões são o BCP, com 396 milhões só à sua conta, e o BES, com 200,7 milhões.
Num País de gente que começa a não ter onde cair morta e que já nem endividar-se pode, trata-se de um verdadeiro milagre. Nem o velho tio patinhas conseguiria tal proeza. Afinal, a desgraça também rende.
Devemos espantar-nos? Longe disso. É, mais uma vez, o casamento da permissividade com o oportunismo, a fantasia e a necessidade, a render largos proveitos. E o apetite por negócios de lucro garantido, como por exemplo a saúde, a dar frutos. O negócio é tão bom que os bancos já começam a tentar comer-se uns aos outros.
Mas os heróis não são os banqueiros, são os seus eficazes departamentos de marketing para os quais vão todos os louros. São eles que criam as necessidades e transformam dramas em histórias cor-de-rosa, para as quais prometem finais felizes. Que bombardeiam todos os eventuais clientes até os convencer de que a oferta é irresistível. Depois é só seleccionar os que morderam o isco e exigir garantias infalíveis. Se não paga o devedor, paga o desgraçado que lhe valeu, e afinal lhe proporcionou o empréstimo. Os únicos dispostos a arriscar aquilo que os bancos nunca arriscam. E aí está o milagre. Mais simples não há. E, assim, como o bom filho o dinheiro dos bancos regressa sempre a casa. Gordo e anafado.
Um banco nunca perde dinheiro a não ser que seja dirigido por indigentes ou atrasados mentais.
Se, graças às modernas tecnologias, a moeda não tendesse a tornar-se uma entidade etérea, como a alma, não haveria cofres para guardar tanta fartura.
Pena é que nas suas digressões pelo mundo o dinheiro dos bancos (melhor se diria ‘gerido’ pelos bancos) sirva para tudo. Porque tudo compra. E cause muito mais infortúnios do que alegrias.
Que seja o excremento do diabo para uns e a única luz dos olhos para outros.
Já sabíamos que as pessoas ganham cada vez menos, estão endividadas e se vêem obrigadas a recorrer ao crédito para sobreviver. Embora outros o façam, também, para ir de férias…
O falso segredo era perceber como é que em vez de aumentar o crédito malparado e os bancos começarem a sentir dificuldades nas suas cobranças, vendo ameaçadas as suas políticas de crédito, aumentem espectacularmente os seus lucros. É aí que entra a instituição ‘garantia’.
É pecado? Nem por sombras. Está tudo nos conformes. Pecado é tudo o resto.
Mas o fenómeno não tem só a ver com as estratégias e os artifícios dos bancos.
Tem a ver com desgraça generalizada, o desespero, a ingenuidade e a costela Sebastianista de todos nós, que nos incita a crer, e querer, que tudo acabará em bem.
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