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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Julho de 2004 às 00:00
Rui Costa decidiu declarar o final da sua carreira como jogador da selecção nacional antes do derradeiro encontro do Euro’2004.
É uma opção discutível mas, em todo o caso, legítima. Rui Costa foi achado como titular indiscutível durante o período de preparação da selecção nacional de Scolari. O brasileiro, apesar de se ter empenhado com entusiasmo no processo de naturalização de Deco, nunca o entendeu – um pouco contra as previsões – como um jogador essencial e muito menos nuclear. É curioso que, nestas mesmas colunas, avancei com a previsão de que Deco, face às críticas lançados por alguns dos seus novos compatriotas e da polémica que entretanto de instalou, só iria ver o seu valor totalmente correspondido durante o Euro’2004. Isto não quer dizer, para que não restem dúvidas, que tenha concordado com esse processo de naturalização, que são coisas distintas.
Como costumo afirmar, pode ser legal possuir onze ‘Obikwelus’ na selecção nacional, mas isso, como português, não representa nada para mim.
É óbvio que tendo perdido o estatuto de titularidade no arranque do Campeonato da Europa, face a uma prestação completamente inaceitável, na sequência de uma época muito negativa ao serviço do Milan e nunca mais se tendo recomposto da subcondição de atleta apenas utilizável, era muto difícil fazer crer que estaria pronto para ser um dos vértices do Mundial’2006, quando se sabe, agora, que Scolari vai continuar em Portugal e possuir jogadores suficientes para fazer a transição sem problemas de maior.
Não acho totalmente certo que Rui Costa tenha anunciado o abandono da sua carreira na véspera da final do Campeonato da Europa; pelo contrário, essa asserção seria considerada, noutras circunstâncias, como algo de profundo desestabilizador. Penso que, desta forma, Rui Costa está a arranjar maneira, junto de Scolari e dos adeptos, de sair em grande. Mas era importante, convenhamos, sair em grande, ao contrário do que aconteceu com Jorge Costa, Pedro Barbosa, Paulo Bento – por que não dizê-lo com Vítor Baía e João Pinto, que ficaram a meio da ponte, seguramente vítimas de muitas situações e algumas pessoas que, nestas alturas, nunca dão a cara.
Se as coisas saírem bem com a Grécia é natural que Rui Costa entre no jogo, possa até ter uma participação importante no encontro e saia consagrado pela multidão e companheiros, ainda por cima no Estádio da Luz. Mas é óbvio que, mais a frio, considerando os interesses da selecção nacional, Rui Costa poderia ter pensado de outra maneira e anunciar o seu abandono após a conclusão do Euro’2004 que, mesmo antes da final de hoje, disse muito aos portugueses.
Seja como for, Rui Costa é um valor incontornável do futebol português, que vai ficar na sua história como um dos maiores embaixadores (talvez a seguir a Figo) da bola lusa da modernidade. Rui Costa não foi dos jogadores que mais cedo chegaram ao território das selecções nacionais, não me esqueço a certa altura da falta que fazia o número 10 na selecção de sub-18, mas é óbvio que é necessário fazer a destrinça entre a longevidade desportiva de um atleta e a fase terminal da sua carreira.
Nunca esteve em causa, bem pelo contrário, nem o seu talento, nem a sua experiência, nem o seu currículo, mas é evidente que, como noutros sectores de actividade, o médio do Milan, aliás como já tinha acontecido com Kaká no seu actual clube, foi ‘traído’ por uma concepção de maior competitividade. Se, em Itália, esse ‘traidor’ chamou-se Kaká, em Portugal o ‘traidor’ dá pelo nome de Deco. É a lei inexorável da vida, sendo certo que, em vinte minutos, Rui Costa pode ser muito mais proficiente do que Deco. Mas, em noventa, o luso-brasileiro tem a capacidade de fazer tudo o que se exige a um atleta de alta competição. Nem Rui Costa nem ninguém devem levar a mal por isso.
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