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Correio da Manhã

Opinião
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25 de Fevereiro de 2004 às 00:00
A questão do aborto volta a ser discutida entre nós, à imagem e semelhança de muitas outros assuntos: sobra a gritaria, escasseia o esclarecimento.
Há quem utilize o problema do aborto como arma política e há quem o pretenda transformar em problema religioso.
Poucos interrogam a Ciência quanto àquilo que verdadeiramente importa: em que momento podemos afirmar que há vida? Claro que essa vida não é ainda autónoma, como não são autónomas muitas outras formas de vida, mesmo após o nascimento.
Mas o que realmente importa perceber é se essa vida, uma vez concebida, representa ou não, e desde logo, vida humana.
Mais do que campanhas propagandísticas, organizadas seja por quem for, interessa pedir à Ciência o melhor dos seus contributos para evitar que uma questão demasiado séria fique à mercê de outros interesses e outras lógicas.
De resto, parte dos traumas que atingem as mulheres que passam pela dramática experiência do aborto, têm origem nesta dúvida essencial: ao optarem por essa via, estão ou não a eliminar uma vida humana?
A simples possibilidade de uma mulher, ao praticar um aborto, estar a suprimir mais uma vida, deve constituir para a própria uma experiência dolorosa, cuja dimensão só ela consegue avaliar.
Também por isso, todas as respostas dadas pela sociedade – legislativas, judiciais, assistenciais e preventivas – não devem esquecer esta dimensão do sofrimento, muitas vezes recheado de medo e de uma enorme solidão.
Mas, a resposta à questão da vida, condiciona as que se seguem. Se “corremos o risco” de estar a falar de uma vida humana, é legítimo admitir a eliminação sumária dessa vida? E estando a falar de vida humana, que margem nos resta para não considerar como um crime, a supressão dessa vida?
Outro problema (de legislação ou jurisprudência) é vir a estabelecer atenuantes especiais que, em muitos casos, evitarão a prisão da mulher que tenha praticado um aborto.
Mas, o problema do aborto não pode ser visto como uma luta entrincheirada de dois campos inimigos. Suponho que ninguém deseja ver mulheres na prisão, como ninguém pretende eliminar vidas indefesas, pelo que só a busca serena de respostas pode ajudar a encontrar soluções apoiadas em valores e não no mero pragmatismo social.
Questões como a do aborto perdem toda a nitidez quando se confundem com a instrumentalização política, partidária, social ou cultural.
Em Portugal, a questão do aborto está novamente desfocada.
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