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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Abril de 2011 às 00:30

Em vez de o acesso ter sido efectuado pela porta das consultas, acabou por se materializar pelo portão das Urgências. Curiosamente, o condutor da ambulância não se deu ao trabalho de vestir a bata branca que normalmente acompanha os profissionais da saúde. Manteve o fatinho de marca habitual e afivelou o seu ar convencido de sempre, o mesmo com que, antes de se sentar na ambulância e de ligar as sirenes, conduzira o País contra a parede.

De rosto treinado para a representação, dirigiu-se aos portugueses como o anjo que acaba de descer à Terra, deitando para trás das costas aquilo que, ainda na véspera, era a sua convicção mais profunda e absoluta. Portugal, afinal, precisou e pela sua mão surgiu, lesta, a ajuda que ele considerara contrária aos interesses nacionais. A ninguém se deu ao trabalho de explicar a razão de mais uma mudança tão repentina de pensamento, de mais uma cambalhota que faz da verdade mentira e da mentira verdade.

A única coisa que se ficou a perceber é que, coitado, ele foi uma vítima da vertigem da Oposição, dos malandros de várias tendências políticas que resolveram dizer-lhe "basta!", pondo um travão ao desgoverno do seu consulado. Mesmo numa das horas mais difíceis que o País terá enfrentado desde Abril de 1974, a máscara está sempre ajustada, porque o que interessa é tentar garantir a permanência no Poder, ainda que isso resulte da maior das dissimulações. No fundo, Portugal e os portugueses têm uma importância relativa perante tão fantástico desígnio.

Desconheço como, à luz do que se está a passar e o recurso à ajuda europeia, com os impactos acoplados que se antevêem , o eleitorado se comportará. As sondagens dão alguma vantagem ao PSD no que respeita às próximas eleições, mas a distância para os socialistas do agora transfigurado e martirizado salvador da Pátria é relativamente curta. Há fenómenos de atracção pelo abismo que não se explicam mas para os quais a manipulação e a desinformação contribuem fortemente. Compete a quem se propõe ser alternativa encontrar os antídotos e os argumentos adequados à desmistificação da propaganda que intoxicou , durante anos , a opinião pública. Até agora, as sondagens vêm mostrando que a competência , nesse domínio, não abunda. Se não arrepiam caminho, a mosca volta a conspurcar a sopa. A realidade, travestida (termo que o homem tanto gosta de empregar), de Fundo Europeu de Estabilização Financeira , o tal que anda de mãos dadas com o FMI, já se encarregou de provocar a estrondosa derrocada da mentira. Compete, agora, aos portugueses, fazer o resto. Tal como as coisas se apresentam, é caso para pedir a Deus que os ilumine.

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