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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Março de 2008 às 00:00
No futebol português, durante anos – e isso está reflectido quer nas escutas telefónicas quer em declarações públicas prestadas por diversos protagonistas da bola – estabeleceram-se contactos, amizades, influências no sentido de se conseguir a ‘melhor nomeação’ para determinado jogo.
O esquema passou a revelar foros de rotina e normalidade a partir do momento em que todos passaram a ser uma espécie de família. A família do futebol. Se se encontra receptividade em alguém para nos oferecer o árbitro que pretendemos e isso se torna numa rotina e se isso, depois, tem uma correspondência prática neste ou naquele jogo, é óbvio que o trabalho fica mais simplificado. A questão deixa de ser o ‘quanto’ se joga para passar a ser o ‘quanto’ se é ajudado. Um jogo (perigoso) de mimos e agrados. Pinto da Costa e Valentim Loureiro tiveram os seus azedumes, próprios de uma franca proximidade, mas, mesmo nos tempos mais difíceis de coexistência, nunca se hostilizaram. Nem mesmo quando o Boavista cresceu desmesuradamente e se anunciava uma espécie de ‘majorização’ do clube do Bessa.
O crescimento do Boavista nunca se poderia fazer à custa do enfraquecimento do FC Porto. Pinto da Costa e Valentim Loureiro sabiam disso e nunca perderam de vista a ideia de que, juntos, eram capazes de protagonizar uma ideia de poder mais sólida.
O major ia dizendo que era do Sporting, mas esteve sempre muito mais perto dos interesses do FC Porto e até do Benfica. A certa altura soube jogar nos dois tabuleiros. A verificação não retira os correspondentes méritos desportivos. Mas uma coisa é jogar ‘apenas’ com as capacidades dos treinadores e dos atletas; outra coisa, bem diferente, é ser beneficiário de ‘subsídios exógenos’.
Estão a ser investigados determinados encontros, em concreto. Isso não significa que o ‘sistema’ tenha colocado as suas garras especificamente nesses jogos. Houve outros, muitos outros, cujas arbitragens foram incomparavelmente mais suspeitas.
Essa é a verdade inconveniente que nunca será descoberta. E, nesta matéria, são poucos os que estão ‘inocentes’. De algum modo, todos se colocaram na posição de poder beneficiar da forma como o ‘sistema’ foi construído. Os clubes pequenos com o objectivo de ficarem com as migalhas. Outros – agora na oposição – também se deixaram enfeitiçar. O actual presidente do Benfica, então no Alverca, percepcionando a forma como poderia não ficar para trás, foi muito próximo de Pinto da Costa. Toda a gente sabe. Hoje, está na primeira linha do combate contra esse ‘sistema’. Copiar os métodos de Pinto da Costa foi algo que vários dirigentes tentaram. Aproximando-se dele para perceberem. Aproximando-se dele para combaterem outros. Aproximando-se dele para lhe fazerem frente... ‘por instantes’.
Em suma: os protagonistas do futebol que temos, caracterizado como está, tirando o caso de guerrinhas pessoais, estão mais próximos uns dos outros do que se pensa. A lengalenga da mudança é uma treta. Ninguém faz nada para mudar. Pretende-se uma transferência de poderes através das mesmas técnicas e métodos. Não vejo ninguém verdadeiramente interessado que o peso que se possa achar fora das quatro linhas se reduza ou elimine. Não vejo ninguém verdadeiramente interessado na regeneração do sistema.
Todos querem os ‘melhores’ árbitros. Aflitiva é a decantada incapacidade do presidente da FPF, que se refugia nos seus ‘parcos poderes’ para justificar a inacção. Gilberto Madaíl diz que não pode fazer nada. É cómodo, dá estatuto e mordomias várias.
O futebol português está em ‘estado vegetativo’ e o presidente da FPF – para utilizar um plebeísmo – ‘anda na boa’, a pensar em organizar Europeus e Mundiais. O presidente da FPF é, teórica e estatutariamente, a figura que mais deveria interessar-se por tudo o que diz respeito ao futebol português. À sua identidade; à sua genuinidade; à sua credibilidade – e ao seu crescimento qualitativo.
Madaíl encolhe os ombros. Que não pode e que não sabe. E assim continua, à espreita da melhor conjuntura para manter o ‘status’ ou dar o salto, internacionalmente. O futebol português definha e Madaíl rejubila.
Grave, gravíssima, é a posição sobre o ‘Apito Dourado’. Diz que não pode fazer mais nada senão esperar pela ‘justiça civil’. Quer dizer: a FPF aconselha os associados a não recorrerem para os tribunais administrativos mas depois fica à espera das suas decisões. Que tristeza!
O Gil Vicente pagou a factura da incoerência. Madaíl muda de cor conforme lhe dá jeito, porque tem muitos ‘amigos’ a quem é necessário dar satisfações. Por isso, é o presidente da FPF. Por isso, são poucos que o contestam. Significa que, para este sistema, é o presidente certo.
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