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Correio da Manhã

Opinião
13 de Fevereiro de 2003 às 00:00
Não sei falar de literatura. Mas posso dizer, sobretudo por ser verdade, que o exemplo de Francisco, personagem central desse magnífico romance escrito por José Casanova e editado pela Caminho, me tem ajudado imenso desde que, em Novembro, aceitei partilhar publicamente o que me sucedeu há 27 anos.

A luta que travamos actualmente pela dignificação da nossa Casa-Mãe é diferente da que enfrentaram os jovens que lutaram contra o fascismo. Mas duvido que pudéssemos resistir hoje sem os mesmos companheiros que ao longo das páginas do livro vão tecendo um tão comovente hino à amizade.

Reli agora o livro num ápice. Sem ele e sem as palavras de incentivo de tantas pessoas, sem os seus conselhos e críticas frontais, sem os seus ombros e braços fortes e solidários, tudo seria seguramente mais doloroso.
Francisco e os amigos vão cimentado a camaradagem, fazendo dela o porto de abrigo a que é bom retornar. E com o qual se pode sempre contar. Como reflexo dessa entrega e da determinação de combate, através dos êxitos e insucessos alcançados, vão constatando que vale a pena lutar. E essa constatação contribui para os aproximar mais.

Por isso, quando hoje me perguntam se valeu a pena, lembro-me sempre do gesto lindo da senhora Provedora, que na manhã do seu primeiro dia de trabalho desceu à Relojoaria para abraçar o mestre Américo. Nesse dia, começou a fazer-se justiça ao nosso herói. Valeu a pena pois! E vai continuar a valer...

Outro ensinamento que retiro do romance prende-se com o significado da luta e do papel desempenhado pelos que a cada instante a encabeçam. O facto de as pessoas rejeitarem o que antes prosseguiam ou actuarem em oposição com o que afirmam defender, podendo desautorizá-las publicamente em nada diminui a justeza dos ideais. Esta constatação é importante. Porque coloca de sobreaviso os que agora procuram caluniar-nos: façam o que fizerem contra os ex-alunos, os portugueses jamais aceitarão que os crimes hediondos cometidos ao longo, pelo menos, das últimas três décadas fiquem sem castigo.

E acima de tudo, não permitirão que se continue a ofender as crianças que tiveram a coragem de denunciar os crimes e os criminosos. Os que reiteradamente têm afirmado que é fácil comprar o testemunho das crianças e jovens talvez estejam a falar por experiência própria. Mas não têm o direito de generalizando, violentarem quem já tão sordidamente foi agredido. A defesa pública de familiares e amigos detidos ou eventualmente sob investigação, sendo legítima e compreensível, não pode ser feita a qualquer custo, nem significar o desrespeito pela dignidade das vítimas e respectivas famílias.

Gostava de poder agradecer pessoalmente ao prof. Marcelo Rebelo de Sousa a indicação que nos deu. É que, prosseguindo “O CAMINHO DAS AVES”, continuaremos a pugnar para que a Casa Pia de Lisboa, a que tantos devemos tanto, volte a desempenhar o papel insubstituível que tem tido no País.
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