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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

O cancro e a escuta

As explicações do Governo para os muitos protestos como tendo causa em acções organizadas pelo PCP cheiram a bafio.

Francisco Moita Flores 21 de Outubro de 2007 às 09:00
A história que está a atravessar a Comunicação Social relacionada com uma professora que padece de cancro na língua e a quem a Caixa Geral de Aposentações tem recusado a reforma é o mais radical exemplo de outros funcionários públicos que nos últimos meses foram obrigados ou a ir trabalhar gravemente doentes ou que foram impedidos de reforma por razões de saúde. Mas também o exemplo da desumanização, da brutalidade fascizante que está a tomar conta do aparelho e do poder do Estado em nome dessa gargalhada que dá pelo nome de esquerda moderna. Os exemplos que alastram pelo País, aos quais se associam perseguições pessoais, buscas policiais a sindicatos, perseguições de índole partidária e uma corrente de propaganda bem organizada e disciplinada, começam a ser ameaças, ainda pontuais, mas que tendem a multiplicar-se conforme vai cedendo o grau de aceitação da opinião pública domesticada.
Não pode ser. As explicações do Governo para os muitos protestos como tendo causa em acções organizadas pelo Partido Comunista cheiram a bafio. Como é inimaginável ficar quieto, em silêncio, quando alguém com doença tão grave é obrigada a trabalhar. Ainda por cima na língua. Este Governo e o seu aparelho, que já não se sabe se é do Estado ou do partido, deve acreditar que a língua é coisa que não faz falta a um professor. Não admira. Tudo aquilo que fuja da obsessão pelo défice não existe. Apenas o défice e nada mais do que o défice. Sofrimento, solidariedade, compaixão são atributos arredados desta esquerda pretensamente moderna que nos governa.
Escrever sobre esta situação repugna. Perceber que existe no nosso país como novela que não tem fim enoja.
Não deixa de ser surpreendente a entrevista do procurador--geral da República onde afirma se está em escuta. Só pode ser uma afirmação descontextualizada. Se um PGR, o maior representante da legalidade do Estado, não sabe se está a ser escutado, então, estamos mesmo nas ruas da amargura. Porque ninguém acredita que tivesse cometido um crime ou dele seja suspeito. E por tal consideração ser impossível, o PGR veio dizer-nos que a proliferação das escutas chegou ao nível da sarjeta e o Estado policial vem encontrar--se com a desumanização brutal com que é tratada a professora que atrás referimos. Se a vulgarização das escutas telefónicas chegou a isto, se a violação da privacidade individual entrou na barbárie, então, não mais faz sentido tratar do Estado, a política e quem manipula estes sistemas com respeito. Aqui está um bom mote para Luís Filipe Menezes mostrar aquilo que vale. E já agora a esquerda clássica porque da moderna não falo por pudor. A prostituição profissional da escuta telefónica ganha uma nova dimensão com as declarações do PGR. Será que esta democracia servil e domesticada, vergada à maioria absoluta, ainda consegue perguntar o porquê desta perplexidade?
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