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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Outubro de 2003 às 01:05
Em toda a sua complexidade, a vida que vivemos nesta sociedade indiferente e dura, egoísta e consumista, apresenta-se muitas vezes, para surpresa nossa, como um admirável processo pedagógico do qual o ser humano só pode sair beneficiado se dele extrair alguma lição. Um dos últimos ensinamentos que colhi foi o de o Homem ter uma enorme capacidade para se sentir solidário, mesmo em relação a alguém com quem não partilhe de notórias afinidades. Um sem-número de factores, arreigados ou ocasionais, podem determinar essa solidariedade. A proximidade numa bancada desportiva, por exemplo, ou a longa espera por um autocarro que teima em não aparecer.
No caso a que me quero referir, a solidariedade surgiu, inteira e sincera, quando ao dr. Ferro Rodrigues desapareceu o cão, ao ser passeado pelos donos na Lapa, zona que o "Gastão" não conhecia. Só quem passou por uma experiência semelhante sabe quanto ela pode ser desesperante e traumatizante. Ao ler o notícia no ‘Correio da Manhã’ imaginei até que ponto aquele político e os seus familiares mais próximos estariam destroçados. E recordei como, ao longo dos anos, eu próprio por duas vezes passei por semelhante provação. No primeiro caso, o "Guru" saltou o murete do jardim, aparentemente fora do seu alcance, e nunca mais foi visto, por muito que a zona tivesse sido insistentemente percorrida, a pé e de carro, dias a fio, à sua procura. Sempre ficou no meu espírito e no da minha família a dúvida sobre qual teria sido o seu destino, e sempre acreditámos no pior. Já no segundo caso fomos mais felizes. O "Tabu", ainda cachorro, encontrou forma de se esgueirar por entre as barras de ferro do portão, e a nossa angústia durou longas horas, mas tudo acabou em bem. Ele enfiara-se, algures, na ramada espinhosa de um arbusto de onde não conseguia sair. Providencialmente, alguns garotos que passavam ouviram-no ganir e indicaram-nos o local. Encontrá-lo foi, como se poderá calcular, uma festa. Como deverá ter sido em casa do dr. Ferro Rodrigues quando, ao fim de dias, o "Gastão" regressou.
A solidariedade com o cidadão não pode, no entanto, apagar o desacordo com o político. O secretário-geral do Partido Socialista, que há poucos dias terminou um périplo pelo País, que não poderia ter começado melhor ( denunciando o impasse do Polis na Caparica) nem terminado pior (insistindo anedoticamente que Portugal está à beira do abismo e não pode parar nem recuar) passeara-se, havia pouco tempo, ao longo de uma extensa entrevista à SIC Notícias, entre Almoçageme e o Largo do Rato, umas vezes de polo, outras engravatado e acompanhado por prestimosa equipa daquele canal televisivo. Durante cerca de uma hora (uma hora, senhores!) o dr. Ferro Rodrigues disse tudo quanto muito bem entendeu, movimentou-se por onde quis, enviou para o interior do seu Partido os recados que lhe conveio enviar. A entrevista, deambulatória, paisagística e ineficaz (como todas as entrevistas em doses industriais), apenas serviu para que a imagem do líder, considerado por alguns dos seus pares responsável pelo estado comatoso em que se encontra o Partido, ocupasse exaustivamente o pequeno ecrã. Da desmesurada exposição não saíu beneficiado o político nem a estação de Carnaxide. O que o actual secretário-geral do PS afirmou, afinal, foi a sua intenção de, mesmo contra ventos e marés, não abandonar a liderança. E deu ainda duas excelentes provas do seu sentido de humor ao dizer não ser adepto das chicotadas psicológicas e ao comentar, quando na imagem dos jardins do palácio do Rato surgiu um belo gato negro, que o local agora ia deixar de se chamar Largo do Rato para se chamar Largo do Gato.
Este foi um erro de palmatória. O gato pode ter sete fôlegos e ser mais possante e agressivo, casmurro e obstinado. Mas o rato é muito mais astuto, a ponto de desafiar a campanha de desratização proposta pelo vereador Pedro Feist, enquanto a astúcia, que se saiba, não abunda no PS. A este respeito, aliás, talvez o dr. Carlos Candal tenha ainda uma palavra a dizer.
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