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Correio da Manhã

Opinião
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18 de Março de 2009 às 09:00

Nas últimas semanas, multiplicaram-se as notícias sobre as colossais perdas de muitos milionários mundiais. Abramovich perdeu 23 biliões de dólares; Buffet, um dos mais bem sucedidos especuladores financeiros de sempre, 16 biliões de dólares; e mesmo os nossos milionários – Américo Amorim, Belmiro de Azevedo ou Joe Berardo – foram fortemente delapidados pela megacrise.

Nada disto é inesperado. A maior parte das fortunas dos últimos vinte anos foi sempre avaliada pelo preço das acções nas bolsas. Enquanto as acções valiam muito, os seus titulares eram "mega-ricos". Mal as bolsas afocinharam a pique, as fortunas mirraram. Uma fortuna é aliás como a Lua, ora cresce, ora mingua. Principalmente, se essa fortuna se baseia em activos financeiros. Nas últimas décadas, foi esse o caso. As economias reais do mundo Ocidental cresciam entre dois a seis por cento ao ano; enquanto as economias financeiras desses mesmos países explodiam! O crédito fácil, a alavancagem financeira, os hedge funds e muitos mais mecanismos criaram fortunas colossais do nada! Como por milagre, e na maior parte das vezes sem qualquer mérito ou inteligência, muitas pessoas ficaram milionárias com a orgia financeira.

Infelizmente, essa não foi uma riqueza bem distribuída. No Ocidente, uma das consequências mais graves desta efémera bonança foi o aumento grave das desigualdades. Os muito ricos ficaram ainda mais ricos, mas os menos ricos não melhoraram assim tanto, e quando o conseguiram foi também devido ao crédito fácil. Ou seja, os rendimentos do capital geraram ganhos extraordinários, mas o mesmo não se passou com os rendimentos do trabalho, que ainda por cima pagavam com a carga fiscal quase toda. O capital ganhou muito, mas o trabalho nem por isso.

No entanto, agora que a bonança acabou, o que se verifica é que perdem todos. Quando as coisas correm mal, os milionários perdem milhões, mas os trabalhadores perdem os seus empregos. Não é preciso ser muito inteligente, nem invejoso, para perceber quem fica em situação pior. Um milionário, mesmo que perca metade da sua fortuna, continua muito bem. Um trabalhador, se perder o emprego, perde um dos pilares da sua vida.

A prazo, se o desemprego explodir, como ameaça explodir, a raiva social e política vai basear-se nestas coisas. As forças do trabalho vão revoltar-se, exigindo que sejam os ricos a pagar a crise. O capital que ainda existe que se prepare. Ninguém terá pena de milionários, ainda por cima quando são poucos os impostos pagos nas suas aventuras financeiras.

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