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Correio da Manhã

Opinião
16 de Setembro de 2003 às 00:00
Durão incendiou o CDS quando, em Caminha, lançou a boca de que pretende governar até 2010, quando, claramente, visava um outro alvo.
Também as reacções da oposição não se fizeram esperar, mas não fazem qualquer sentido, nem merecem qualquer tipo de reflexão. Porque afinal Barroso até nem foi muito ambicioso. Com o atrevimento descuidado que o caracteriza, limitou-se a deixar escapar o que lhe vai na alma. Intimamente, e para não fugir à regra, o que desejaria seria eternizar-se no poder, morrer de velho em S. Bento, como o já quase lendário homem de Santa Comba Dão.
Mas onde o sobressalto foi maior foi nas hostes do CDS, ligadas ao PSD como o doente terminal ligado à máquina.
Portas sabe que isolado não vale um caracol e o CDS, com ele ou sem ele eleitoralmente, também não vale muito mais. Durão, ao vender a alma ao diabo, segurou Portas e conferiu alguma homogeneidade ao seu partido. Que há muitos anos vinha a ser vítima de uma angustiante distância do poder. Mas que chegado ao poder se tornou no típico partido muleta por natureza.
Como alguém disse já, Portas é efectivamente o queijo limiano de Barroso, que com pouco milho tem alimentado um faminto bando de pardais ainda há muito pouco tempo sem rumo.
Mas se hoje, para Durão, matar Portas seria como cortar uma das mãos, para Portas, a queda seria a própria morte. No dia em que Barroso, se alguma vez o fizer, descartar o CDS, este partido regressará ao penoso processo de convulsões em que se arrastou na era pré-coligacão e, provavelmente, terá os seus dias contados.
O destino de Barroso e as suas intenções são vitais para Portas. No CDS, onde o problema não é a falta de lucidez, toda a gente o sabe. Por isso, no CDS, o desejo de uma coligação formal para o futuro, que lhes torne menos angustiante o dia-a-dia é o grande objectivo a perseguir a todo o custo.
Mas Portas vive na corda bamba e não está em condições de exigir nada. Só pede a Deus e a todos os santinhos que ninguém o empurre. Mas já pode glorificar, sem grande dano, a excelência deste casamento que lhe está a saber tão bem porque, mau grado os afectos estarem totalmente arredados, lhe proporciona casa, mesa e roupa lavada e a tão almejada consideração social. Daí que, sempre que Durão fala no futuro, saltem em peso todos os seus peões de brega a recordar os muitos méritos da coligação e a prever-lhe o mais risonho dos futuros. Afinal, compreende-se o zelo. Lutam pela própria sobrevivência.
O maior problema de Portas é que Durão não pode, em circunstância nenhuma, permitir-se uma coligação pré-eleitoral. Porque, no dia em que o fizer e os resultados de cada um dos partidos se dissolvam e mascarem no todo, o anão fará voz grossa e reclamará do gigante aquilo que lhe não pertence. Por outro lado, para Barroso deixar de lutar pela maioria absoluta, de saber, afinal, o que vale ou não vale, com as suas próprias forcas, será sempre uma pesada derrota.
E pode descansar, porque se o cenário se repetir, Portas lá estará sempre, tão disponível como dantes. A margem entre o drama de Portas de saber que será dispensável se Barroso chegar à maioria absoluta e o drama de Barroso de saber que sozinho poderá, eventualmente, ter de ceder o poder ao PS ditará o destino desta estranha aliança.
É claro que a actual fórmula produz resultados não negligenciáveis para ambos os partidos. Mas só para eles e para mais ninguém. Portas mantém a doce ilusão de governar e Barroso, por sua vez, não depende dos humores da oposição nem é obrigado ao calvário de Guterres.
Durão já se revelou um excelente gestor destas situações. Provavelmente, o CDS esperará sentado por uma luz no fundo do túnel e continuará a ser uma providencial bengala, até que Durão possa caminhar por seu próprio pé.
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