Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
2
26 de Novembro de 2006 às 17:00
Vem chegando o Natal e é época de estreia de filmes. Como esse ‘Casino Royale’: o mito James Bond, muita intriga e emoção. Vamos ao cinema, diz-se, exactamente por isso: para pormos sal na vida. A sério? Não lhe chega o noticiário? Se um Bond o excita, ele que acaba ao fim de duas horas, que dizer de um Litvinenko? Este morre ao fim de alguns dias num hospital londrino, mas o protagonista da sua história, o Polónio-210, vai continuar por aí como dizia Santana Lopes anunciando que voltava (e não é que voltou?...)
Nos 007, o fio que os une é sabermos se um dia alguém será melhor que Sean Connery. Mas o Polónio-210, esse, é um mistério completo e que nos envolve. Eu deixei de comer sushi. Grande filme este o de Alexander Litvinenko. Tem até daquelas cenas iniciais filmadas em tempos antigos, muito anteriores à trama actual. Vemos a sr.ª Maria Sklodowska e o marido – o casal é mais conhecido pelo nome do marido, Curie – no laboratório. Olha, descobriram um novo elemento radioactivo! Talvez porque ele era um parisiense gentil, a descoberta vai ficar com nome que é uma homenagem à terra dela: Polónio.
Polónia, estão a ver?, aquele corredor de passagem para os apetites dos dois vizinhos, um deles sendo o russo. Pronto, o espectador já ficou a saber que aquele rapaz que vai morrer careca de radioactivo num hospital londrino, lá mais para a frente no filme, tem um ogre moscovita à espreita. E para não haver dúvidas de que o filme é de terror, outra reconstituição histórica: Irena, a filha de Maria, cientista como os pais, vai morrer de cancro depois de uma proveta de Polónio explodir no seu laboratório.
Vamos, então, para os tempos modernos. Alexander Litvinenko é um agente secreto. Secreto no sentido extremo do termo, porque ele é russo, pertenceu àquele KGB que formou, entre outros, Vladimir Putin. Como este, Litvinenko tinha daqueles olhos cinzentos que nos desmentem toda a produção de Hollywood sobre a matéria: sim, é possível ser espião e ser muito, muito inteligente. Já mais consentânea com a tradição, Marina, a sua mulher, é uma eslava loira e lábios polposos.
Litvinenko cortou com os antigos patrões e vai para a cidade mais russa do Ocidente. Londres, onde os russos multimilionários quando não estão a comprar clubes de futebol estão a conspirar contra Putin. Litvinenko dá-se, evidentemente, com todos esses multimilionários até porque os capitalistas russos são ex-colegas, fizeram antes um tirocínio no KGB. Alexander Litvinenko corre oito quilómetros por dia (Putin continua a fazer judo) e interessa-se pela Tchetchénia ou jornalistas abatidos. Os russos vão voltar a ter grandes romancistas, porque têm histórias: aquele é o povo que mais cuida do corpo e das coisas do espírito.
Um dia, Litvinenko vai comer sushi ao restaurante Itsu, em Picaddily, e tem um encontro no Hotel Millennium. A partir daí, o enredo anda a galope e ele cai na cama do hospital. As autoridades sanitárias reconhecem que ele foi envenenado. Pouco antes de ele morrer, a causa é detectada: o raríssimo Polónio-210. Não vos vou contar o filme todo. Mas deixo-vos com esta incógnita: o Itsu fecha com o escândalo ou torna-se restaurante da moda?
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)