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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Fevereiro de 2006 às 17:00
Numa época tantas vezes caracterizada por falta de esperança, o caso de Timor deve ser lembrado, estudado e acompanhado.
Após quase vinte e cinco anos de ocupação, a independência de Timor é o produto de diferentes factores que se conjugaram no tempo certo.
No momento actual, por exemplo, em que diferentes radicalismos procuram o afrontamento entre as religiões, seria mais delicado ver um país muçulmano abrir mão de um território maioritariamente católico. O destino de Timor, no quadro da presente conjuntura internacional, seria encarado como questão menor, que dificilmente mobilizaria as boas vontades que se congregaram nos anos 1999 / 2000.
Assim, o processo de independência de Timor beneficiou, seguramente, de ser anterior à conjuntura criada pelos atentados do 11 de Setembro. Por isso, na altura, o caso de Timor foi debatido como um dossier político, não como matéria do foro religioso.
Se o acento tónico tivesse sido posto na religião, a complexidade da solução para Timor seria ainda maior.
A gestão da Santa Sé, tantas vezes criticada, mesmo por alguns católicos, contribuiu decisivamente para que o caso de Timor fosse avaliado e decidido com base na sua natureza política.
Se a Santa Sé tivesse aberto clivagens mais profundas com a Indonésia, não só teria provocado acrescidas dificuldades aos católicos indonésios, como agravaria a situação da Igreja católica em Timor. A prudência da Santa Sé permitiu à Igreja de Timor as condições mínimas para acompanhar, ao longo dos anos, a população timorense.
De facto, a Igreja católica timorense foi apertadamente vigiada durante os tempos de ocupação. Mas a repressão teria sido bem pior, se a questão de Timor fosse apresentada e equacionada como eminentemente religiosa.
Assim, a acção da Igreja, próxima dos que mais sofrem, desencadeou em Timor um mar de conversões que foi inquietando o regime indonésio e enervando os militares no terreno. Altamente minoritária durante séculos, a Igreja católica acabou por se tornar largamente maioritária entre a população timorense.
Mas tendo a Igreja católica esta expressão, não deixa de ser curioso que as primeiras eleições timorenses tenham colocado, como primeiro-ministro, um político muçulmano.
A aprendizagem de convivência democrática não tem sido e não será simples. As incógnitas são muitas, designadamente quanto ao modelo de desenvolvimento de Timor. O turismo e o petróleo parecem ser alguns dos eixos do futuro. Mas é sabido que em muitos países, o petróleo tem desenvolvido, sobretudo, as contas bancárias dos respectivos dirigentes e pouco tem adiantado ao desenvolvimento das populações.
A comunidade internacional, a cooperação portuguesa e da União Europeia e a boa relação com Indonésia e Austrália serão aspectos decisivos na evolução de Timor. Mas será indispensável a continuação de lideranças firmes, embora moderadas, dentro da própria sociedade timorense.
Num processo ainda frágil, vozes como D. Basílio do Nascimento e Xanana Gusmão são um privilégio para os timorenses e factores de credibilidade, dentro e fora do país.
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