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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Agosto de 2005 às 00:00
Factura negativa. O choque tecnológico ainda não passou de uma promessa, mas a frágil economia portuguesa já está a pagar a factura do preocupante choque do petróleo. Não é só nos combustíveis que ficam mais caros. Os industriais de panificação já avisaram que o pão também vai sofrer aumento de preços e quase todos os bens acabarão por reflectir esta pressão.
A economia portuguesa é a mais vulnerável da Europa aos preços petrolíferos, uma vez que há poucas alternativas àquela fonte de energia. A seca extrema agravou essa tradicional dependência. A indústria portuguesa, que já pagava uma pesada factura energética, vê agravar as contas. E se para os consumidores o choque petrolífero se traduz num agravamento do custo de vida, muito superior ao medido pelo índice oficial de inflação, para as empresas a situação ainda é mais complicada, uma vez que perdem competitividade face aos seus concorrentes externos.
A prolongar-se esta tendência altista do ‘ouro negro’– e há cada vez mais sinais que a subida de preços é para ficar – Portugal arrisca-se a ter uma longa recessão. Se em 2005 houver uma evolução negativa do PIB, o nível de riqueza de Portugal fica abaixo do registado em 2002, ano em que a actividade económica cresceu uns míseros 0,4%. Em 2003, baixou 1,1% e em 2004, ano em que tantas expectativas foram postas no contributo do campeonato europeu de futebol, a riqueza apenas cresceu 1,1%. Ou seja, a média de crescimento da primeira década do novo milénio não anda muito longe do zero.
Economia débil. Sem choques negativos externos, a economia portuguesa já vivia uma preocupante estagnação. Mesmo os anos de crescimento da segunda metade da década de 90 já escondiam essa debilidade, uma vez que esse ciclo de relativo crescimento foi suportado pela fantástica descida dos juros que permitiu uma corrida sem precedentes à compra de casa e de bens de consumo.
Com recurso a dinheiro barato que os bancos foram buscar aos mercados externos, os portugueses endividaram-se na compra de casa e de carros. As instituições financeiras, os especuladores imobiliários, os empreiteiros e alguns comerciantes ganharam fortunas, mas esse dinamismo não se viu no tecido produtivo e as indústrias portuguesas foram perdendo quota de mercado, quer em Portugal, quer no estrangeiro.
‘Bóias’. Num país pobre e pouco empreendedor, a iniciativa está muito dependente do investimento público, que tem assentado no betão. Foi esse o motor da economia após a adesão à União Europeia com as auto-estradas e as infra-estruturas do cavaquismo. A realização do campeonato europeu de futebol de 2004 e os faraónicos estádios também assentavam nessa perspectiva.
O TGV e o aeroporto da Ota surgem como as novas ‘bóias de salvação’ e transformaram-se no grande cavalo de batalha deste Governo, que neste processo cometeu um erro lamentável. Anunciou os projectos sem apresentar os estudos da viabilidade financeira. Sem o estudo que demonstre qual a relação custo-benefício para os contribuintes e para a economia portuguesa, o ministro das Obras Públicas nem sequer está em condições de citar uma máxima de um antigo dirigente desportivo que um dia disse: “Está tudo tratado, só falta o dinheiro”.
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