Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
25 de Setembro de 2003 às 00:12
Ainda ninguém explicou aos Portugueses, em linguagem simples, o que é essa coisa do deficit orçamental e quais as consequências da sua perenidade.
Ainda ninguém foi capaz de informar que estamos perante um fenómeno nacional que mais não faz que mimetizar o descalabro a que pode chegar a vida familiar de cada um, caso não se tenha juízo na sua gestão quotidiana.
O Estado anda, há muitos anos, a gastar muito mais do que consegue arrecadar nos impostos e nas cobranças decorrentes dos serviços que presta aos cidadãos.
Assim evoluiu para uma situação de pré rotura, que está a ser abordada de uma forma multidisciplinar, inevitavelmente dolorosa e, até por isso, sem garantia de sucesso. O Estado está a procurar diminuir a sua despesa, cerceando investimentos e racionalizando a gestão da sua estrutura. Em paralelo, procura aumentar a receita através da alienação de bens e equipamentos, de aumentos da comparticipação dos cidadãos no pagamento dos custos dos diversos serviços públicos e de tentativas de relançamento da economia, gerando assim uma maior receita fiscal.
Esta fórmula, cujo doseamento relativo é discutível, era, contudo, inevitável. Ela é semelhante à que pode ser aplicada numa casa, onde, durante um longo período de tempo, os salários dos diferentes membros da família foram muito menores do que as despesas realizadas.
A grande família que é o Estado Português foi prolongadamente leviana: "Passou férias muitos anos no estrangeiro; comprou, em simultâneo, casa, carro e electrodomésticos, em regime de prestações de longa duração; jantou fora, em restaurantes de luxo, uma dúzia de vezes por mês; não se inibiu de ser cliente de lojas de marca, numa lógica de novo riquismo exibicionista."
A montante desta gestão danosa os seus rendimentos mantiveram-se sofríveis e a sua produtividade permaneceu ao nível da sua secular indolência.
As consequências estão à vista. À necessidade de, abruptamente, passar a ter de fazer compras na loja dos "300", somou-se a sujeição a negociações humilhantes com uma banca imune a arrependimentos inconsistentes. Ao drama de ter de conviver com penhoras recorrentes, juntou-se a fatalidade de ter de fugir diariamente do cobrador de fraque.
Chegados a este ponto, a sua reversibilidade é muito difícil dentro das normas de um Estado de Direito Democrático. Um eventual sucesso exige a conjugação de dois pressupostos: reformas políticas céleres e radicais e um pacto de regime que assegure a harmonia social indispensável à sua aceitação.
Infelizmente, não se vislumbra, essa convergência de vontades.
Por um lado, o actual movimento reformador, globalmente positivo, esmorece aqui e acolá à tentação minimalista, amedrontado por arruaças vigorosas mas pontuais.
Por outro lado, o tal pacto de regime não se torna aparente. Esse pacto, para além de insubstituível, não se podia cingir ao entendimento entre cúpulas partidárias. Esse acordo teria de ser mais amplo e envolver entidades tão diversas, como o mundo empresarial, o mundo sindical, as universidades, a comunicação social e todos aqueles, que fruto do seu estatuto e posição, são incontornáveis fazedores de opinião.
Nos últimos dias, posições públicas de reitores de universidades, de representantes de ordens profissionais, de movimentos juvenis e até de muitos editorialistas com responsabilidades, têm ido, paradoxalmente, num sentido oposto. Têm semeado a discórdia, têm propagandeado a irresponsabilidade e têm promovido formas violentas de resistência à mudança.
O futuro de uma comunidade depende largamente da capacidade e da clarividência das suas elites. Os próximos meses vão ser decisivos para Portugal conseguir inverter o actual ciclo de retrocesso. Se o não fizer os principais responsáveis não serão os conjunturais detentores do poder político. Serão, lastimavelmente, aqueles que, indevidamente, têm o rótulo de serem os melhores de todos nós.
Para a história, essas elites poderão ficar como as coveiras da felicidade de várias gerações de portugueses.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)