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Correio da Manhã

Opinião
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21 de Outubro de 2007 às 00:00
Há dias, saíram os vencedores do Ig Nobel 2007, criado pela revista científica de humor ‘Anals of Improblable Research’, para premiar pesquisas escanifobéticas. Os contemplados receberam ontem os diplomas das mãos dos Nobelizados oficiais do mesmo ano, numa cerimónia na Universidade de Harvard, sob uma chuva de aviõezinhos de papel. Com esse tocante desportivismo, os ganhadores do Ig Nobel mostram que não são ignóbeis.
O mais estapafúrdio de 2007 foi uma equipa de cientistas americanos e a sua “bomba gay”, a qual faz com que “soldados inimigos no ‘front’se sintam sexualmente atraídos entre si”. O mérito do Ig Nobel é lembrar que a ciência pode ser tonta e divertida. Como muitos programas do Discovery Science, do National Geographic e do Odisseia. O ‘4XCiência’, da RTPN, é instrutivo, mas precisa de menos pompa e mais circunstância. Hoje, somos quase todos azelhas em ciência. É que esta reduziu imenso o seu foco – um especialista é alguém que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Tornou-se cada vez mais abstrusa – como a teoria das super-cordas, segundo a qual há nove dimensões, seis a mais do que as que vemos (quanto mais leio sobre esse assunto, mais o meu saber diminui).
Sou um nabo total em Matemática, por isso ia-me dando uma coisa quando a Casa Fernando Pessoa me convidou para debater cosmologia com os eméritos cientistas Mário Ruivo e António Manuel Baptista. Desenrasquei-me procurando combinar a verve do Ig Nobel com jeitinho dos canais de TV. Aliás, uma dica de borla: a menos que sejas um génio, dedica-te a ser inteligível. Eis como o próprio Einstein explicou a sua maior criação: “Quando tentamos engatar uma miúda, 1 hora parece 1 minuto. Quando fazemos o exame da próstata, um minuto parece 1 hora. Isto é a relatividade.” Falar de invenções é a maneira mais atraente de abordar a ciência na TV.
Por sinal, se não fosse Edison (o inventor da lâmpada), ainda estaríamos a ver televisão à luz de velas. O Discovery passou um documentário sobre o inventor do gravador de chamadas – quem, como este, dá conta do recado? E o Odisseia expôs o ridículo trágico de eco-fanáticos como T. Treadwell, o tele-activista que arrulhava “Amo-vos” para os ursos do Alasca – e acabou devorado por um deles. Intrigante é que um meio tão fofoqueiro como a TV raramente fale sobre o seu inventor, o quase anónimo Philo T. Farnworth. Ah, julgavam que tinha sido o saudoso Fernando Pessa, com uma mãozinha do engenheiro Sousa Veloso? Qual quê: estes inventaram a roda.
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