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Correio da Manhã

Opinião
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24 de Maio de 2005 às 00:00
Mas como se continua a fazer política à custa do futuro do País é possível que José Sócrates e Marques Mendes continuem a tentar retirar dividendos destes espantosos 6.83% do défice que ontem, finalmente, com a almofada de ar proporcionada pela vitória do Benfica na SuperLiga, Vítor Constâncio anunciou como resultado do estudo que lhe fora encomendado pelo Governo.
Há aqui matéria para muitas análises. Desde logo, como pretende o PS, à qualidade do trabalho de contenção realizado (?) por Durão-Ferreira Leite e Santana-Bagão. Alguma coisa na verdade funcionou mal se atendermos a que o intervalo máximo admitido pelo último Governo era de 5,9 mil milhões de euros e o ‘buraco’ descoberto pelo Governador de Portugal é agora de 9,55 mil milhões! Entre um e outro resultado, que nenhumas receitas extraordinárias tornariam menos doloroso, está um desvio que daria para construir quase 30 estádios da Luz!
Estamos perante um défice que vai obrigar a procedimento da Comissão Europeia, já anunciado, torna Portugal um triste campeão da zona Euro, nos compromete o futuro colectivo, a curto prazo pelo menos, e aconselha alguma prudência aos defensores do ‘não’ à Europa. Se não tivesse aderido ao Euro, a economia nacional já teria assistido a várias desvalorizações da moeda que os portugueses teriam sentido ainda mais dramaticamente na carteira e na economia diária.
Politicamente, está aqui um desafio a José Sócrates, que já se percebe entre dois fogos: o do partido, alimentado por Jorge Coelho e que tentará defender o ciclo eleitoral, e o do ministro das Finanças, o independente Campos e Cunha, obrigado a ver o problema à luz das necessidades do País. O estado de graça de Sócrates e as promessas que o então candidato a primeiro-ministro fez publicamente têm aqui um enorme desafio.
Não há volta a dar. O Governo tem de actuar na despesa e na receita.
Na despesa estamos mais do que provavelmente a falar do pagamento das Scut já no próximo ano, em congelamento de salários na Função Pública em 2006, no agravamento do preço dos combustíveis, em decisões penosas no campo da Saúde e da Segurança Social e, quem sabe?, do esquecimento de outra promessa de José Sócrates: o não aumento dos impostos. Dizem os especialistas que pelo menos nos indirectos sobre o consumo, como o IVA, virão aí más notícias.
Seja qual for o caminho escolhido, e as medidas a tomar, é preciso que José Sócrates fale rápido aos portugueses e seja directo no que nos tem a dizer. Por seu lado, Marques Mendes não podia ser mais frontal: quer que o Governo corte na despesa e faça o trabalho sujo que, afinal, o PSD não fez, de despedir, congelar salários, cortar nas regalias e pensões. Ou seja, o PSD quer começar já a ganhar as próximas eleições, como o fez no tempo de Ernâni Lopes (e Mário Soares)…
Pelos vistos é pedir demais aos dois partidos que se entendam quanto à qualidade de vida dos portugueses nos próximos anos e acabem com ‘os discursos da tanga’. É pena. Sobretudo é pena que ambos não percebam que a inteligência das pessoas será capaz de processar com alguma clarividência o tempo de dificuldades que, afinal, está longe de ter terminado.
José Sócrates, se for claro, corajoso e socialmente determinado, tem alguma vantagem neste campo minado pela demagogia e no qual os políticos estão a faltar ao respeito aos portugueses mais pobres.
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