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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Maio de 2006 às 17:00
Os adeptos dos clubes de futebol, ignorando o que são os verdadeiros contornos de uma indústria em decadência, a qual vai resistindo aos inúmeros escândalos que vão rebentar com ela a prazo se não for colocado um travão (os dinheiros do futebol deixaram de ser insuficientes para alimentar uma máquina megalómana, que paga a peso de ouro, muito acima do razoável, jogadores, treinadores, dirigentes e comissionistas das mais variadas espécies, e é por isso que, através de outros dinheiros, continuamos a assistir a contratações multimilionárias, um verdadeiro atentado à lógica de sobrevivência fomentada pelo próprio capitalismo em todo o globo terráqueo), os adeptos dos clubes de futebol, dizia, lá vão rejubilando de contentamento quando, como foi o caso do Benfica esta semana, uma das suas antigas vedetas, Rui Costa, entretanto transformado em emigrante, por razões óbvias de mercado, regressa a casa mai-la sua trouxazinha e uma lágrima ao canto do olho para, aos 34 anos, com o seu nome, prestígio acumulado e a disponibilidade física e mental que um jogador em fim de carreira pode exteriorizar, ajudar o seu clube do coração a consumar aquilo que parece aos olhos da ‘nação encarnada’ um processo de devolução do Benfica aos benfiquistas, se é possível entender assim as recentes chegadas do treinador Fernando Santos e do jogador Rui Costa à Luz.
Colocando uma pedra de gelo para arrefecer os tempos de euforia que estas coisas suscitam muito particularmente no nosso país, com as coisas do futebol (veja-se o caso da Selecção: só falta mesmo os jogadores fazerem piqueniques debaixo de um sobreiro, com queijinhos de rilhar, torresmos e um licorzinho de poejo refrescante, para darem maior corpo a esta extraordinária osmose nacional que se projecta entre o Convento do Espinheiro mai-las suas caríssimas suites e o Templo de Diana, onde até é possível fazer umas peladinhas de confraternização, colocando a putalhada a coleccionar autógrafos, num esquema metodológico que faz apelo a estas técnicas para recuperar totalmente os nossos heróis), parece-me importante dizer, desde já, duas coisas:
1.ª) Não são nem Fernando Santos nem Rui Costa que vão devolver o Benfica aos benfiquistas porque, bem vistas as coisas, já não se percebe bem a quem pertence o Benfica e os seus jogadores (o mesmo acontece, por exemplo, com o Sporting).
2.ª) Apesar desta tentativa de recuperação de identidade, o que interessa perceber é se, na lógica actual dos retalhos, a contratação de Rui Costa faz sentido do ponto de vista meramente desportivo, excluindo na medida do possível a operação de marketing que lhe está subjacente.
Há que pesar os prós e os contras. Como jogador, nas actuais circunstâncias, Rui Costa ainda pode ser útil porque um jogador, mesmo aos 34 anos, quando tem classe e vontade de se afirmar, reúne condições para atenuar alguns défices que, estruturalmente, a equipa do Benfica exibiu ao longo da época. O problema do número 10 não se resolve porventura com a contratação de um número 10, mas tê-lo, e o Benfica agora tem-no, pode ser importante. Não é crível que as actuais possibilidades de Rui Costa não estejam à medida das necessidades do Benfica e das exigências ditadas pelo nosso campeonato.
De resto, o Benfica pode aproveitá-lo no futuro. Não sei se como director desportivo, se noutra função qualquer. A verdade é que o Benfica necessita de recuperar algumas das suas figuras (como faz o FC Porto) e dedicar-se finalmente, ao contrário de uma lógica de certo mercenarismo, à construção de um modelo desportivo devidamente sustentado. Benefício da dúvida para Fernando Santos nesse particular. Mas é certo que o Benfica necessita de trilhar um novo caminho, agora que tem o seu Centro de Estágio em condições de funcionar, colocando o enfoque nas ‘questões técnicas’, em todo um edifício que é preciso pôr de pé para dar resposta a um futebol com MAIS PRAZO, não tão instantâneo, rompendo com aquilo que tem sido um uso e um abuso da utilização de técnicas de publicidade, em que claramente as vozes são mais do que as nozes. O Benfica transformou-se numa grande agência de comunicação e marketing. É altura de assentar sem desprezar a força da sua marca.
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