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Correio da Manhã

Opinião
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1 de Outubro de 2003 às 00:00
A televisão faz a muitos políticos o que a guilhotina causava a muitas pessoas no tempo de Robespierre. O antigo ministro de Tony Blair, Peter Mandelson, referia há pouco tempo esse dilema contemporâneo dos políticos: encantados pela televisão, têm cada vez mais medo dela.
Compreende-se. O centro do debate político deslocou-se do Parlamento para a televisão. No Parlamento já quase ninguém tem o dom da palavra. Quase todos parecem cassetes importadas de um congresso soviético: já se sabe o que vão dizer, antes de pedirem a palavra.
É uma sorte termos dois dos melhores tribunos portugueses a partilhar, connosco, as suas ideias no pequeno ecrã. É um azar que Pacheco Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa falem, quase simultaneamente ao domingo, em dois canais diferentes. As diferenças foram visíveis nas duas primeiras emissões. Rebelo de Sousa fala, e o "pivot" da TVI apenas lhe vai servindo ingredientes, que ele mistura a seu bel-prazer. E ele é mestre nesse jogo de xadrez televisivo. É um comunicador nato e que criou uma fórmula impossível de recriar. Pacheco Pereira percebeu isso na SIC. E por isso, apesar de dominar bem o mundo da comunicação (escrita, rádio, weblog) soube ser sensato: escolheu um espaço recatado onde se sente à vontade, e onde as imagens pautam os seus comentários (a "felicidade" de Paulo Portas durante o Congresso foi bem aproveitada). A ideia do "Mapa da Mudança" é um ovo de Colombo, porque Portugal já não vive só dentro das suas fronteiras, ao contrário do que muitos telejornais pensam. Mais calmo um, mais rápido o outro, temos um duelo de inteligência ao domingo.
NOVO DIVERTIMENTO
O "divertimento" tornou-se o guia espiritual das televisões. Em nome dele vale tudo. A intimidade como "divertimento" serviu para transferir o "share" da SIC para a TVI. Quando esta pensou que o público estava de língua de fora à espera que a intimidade do "Big Brother" fosse substituída por um "divertimento mais adulto", eis que a SIC descobriu que a tentação do momento estava na humilhação dos candidatos dos "Ídolos". É isso que "diverte" os espectadores actualmente. Embora no final tudo esteja pronto para a absolvição: o júri dá as boas novas aos que seguem em frente, a música é escolhida para emocionar e o público pode dormir descansado.
CRISE DE VALORES
O Jornal 2 é, hoje, um clone desengonçado do Telejornal da RTP 1, visto uma hora antes. As únicas diferenças são os comentadores de algumas notícias e as frases ditas pelos "pivots". A geralmente lúcida Fátima Campos Ferreira quis mostrar que há diferenças assinaláveis: considerou, sem se rir, que a questão dos helicópteros recreativos poderia indiciar "uma crise de valores da nossa sociedade". Será que esse era o objectivo dos excursionistas? Ver em que reservas naturais ainda existiam valores?
REFERÊNCIAS & INTERFERÊNCIAS
Excelente a entrevista de Ana Sousa Dias a Ana Mafalda Castro na RTP 2, uma cravista portuguesa que, com humor, até soube explicar que ela e o seu marido vivem em diferentes séculos musicais.
A SIC voltou a somar pontos com as reportagens que revelaram o caso dos "helicópteros turísticos". Só cometeu um pecado: quando se martela muito uma evidência, às tantas não há ouvidos que resistam.
Sabe bem, por vezes, recordar velhas séries inocentes que encantavam os nossos olhos noutros tempos. É o caso de "Casei com uma Feiticeira" com Elizabeth Montgomery, que agora se vê na RTP 2. Um prazer.
A falta de programas sérios de divulgação musical, dá nisto. São os telejornais que passam "video-clips". Há uns dias foi um de Sting no Telejornal da RTP 1. Será isto a informação-espectáculo?
Em 1998, Júlia Fernandes fez uma reportagem em Alcochete sobre o impacto da ponte. A RTP 2 repetiu-a. Um regresso ao passado com muito de presente.
Editor de Privado do ‘Jornal de Negócios’, Fernando Sobral, 43 anos, passa a colaborar com o ‘CM’ todas as quartas-feiras
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