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Correio da Manhã

Opinião
9
3 de Março de 2006 às 17:00
Os inquéritos de rua não deixam dúvidas. Os portugueses acham que a sua situação está má e tende a piorar. Mas, curiosamente, a popularidade do Governo não cai. Porquê? Num ano ficámos a saber com o que contamos. E, sem eleições à vista, o melhor antidepressivo é acreditar que com alguns ajustamentos talvez este Governo nos ajude a chegar à terra prometida.
Entramos no domínio da fé. O pior é que o velho Estado atento, moralizador, definidor de regras que evitassem o descalabro social, por cá já deu o que tinha a dar.
O Estado, por inépcia, moda, clientelismo e falta de ideias, demite-se de muitas das suas funções tradicionais e, no resto, atrapalha. Os portugueses fazem hoje a sua vida sem cinto de segurança, sujeitos a graves danos ao mais pequeno sobressalto.
O Estado, parceiro da tirania económica, não vale nada. Gere a crise e quase sempre mal.
Dependemos dramaticamente do exterior. Da Europa e suas instituições transformadas em viveiros de burocratas, dos EUA, dos países produtores de petróleo e outras fontes de energia, das potências em ascensão, de todos os países com mão-de-obra ainda mais barata do que a nossa e dos investidores. Enfim, de quase todo o mundo. É de mais.
E, com o enfraquecimento do Estado, a política deixou de ser uma forma de intervenção, um modo de governar, de procurar soluções para os problemas das pessoas. Passou a ser um desengraçado capítulo da filosofia. Tornou-se uma ideia abstracta e distante. Discute-se a política como se discute o sexo dos anjos. Sem tradução efectiva nas fórmulas governativas. No bem-estar das pessoas. Imperativos políticos não há (pois não, dr. Correia de Campos?). Há imperativos económicos. São eles que ditam tudo. E a ‘ordem’ económica é a desordem política. O caos social. Veja-se como o Banco Central Europeu encarece o dinheiro e a CE já se apressa a criar um fundo para compensar as desgraças da tão glorificada globalização!
No início do séc. XXI, a ideia de um Mundo melhor (para todos, entendamo-nos, pois só assim será melhor) começa a parecer uma caricatura. A economia, só por si, não pode dar mais do que já mostrou. Esgotou-se. Promete um Mundo melhor para alguns. Poucos. E aleatoriamente. Os que tiverem a passada mais rápida, a boca maior e os escrúpulos devidamente dominados. E fica-se!
É claro que a História da Humanidade não é um hino de louvores às qualidades e à generosidade do Homem. É o seu contrário. É uma História de confrontos, de miséria, de pobreza, de sofrimento, da prevalência do mais forte, um carrossel de indignidades nas relações entre os homens. E de um profundo e insensível desprezo por todas as utopias, pontuada de breves e ilusórios momentos de glorificação do Homem. Não estamos a assistir a nada de novo. Mas o Planeta é mais pequeno. Tudo se passa aqui e agora, no momento exacto, seja qual for o cenário real. A iniquidade está mais presente e agressiva. Tudo nos espanta e pede justificação. É preciso que entendamos por que é que o Mundo, com um estranho consenso de quem manda, está a ser regido por regras que nada têm a ver com a dignidade do Homem.
Os filhotes de Friedman, que põem ovos por todo o lado, são papagaios descoloridos e desmiolados, mas hipnotizaram e dominam o Mundo.
Mas lhe não dizem o que virá a seguir.
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