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Correio da Manhã

Opinião
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18 de Outubro de 2002 às 00:33
Há quem não o saiba descodificar (o PS, por exemplo, que ficou à nora com as declarações a propósito da lei laboral), mas com jeito lá nos vamos habituando. Quando o presidente comentou o atentado de Bali, usando umas comparações confusas entre o terrorismo internacional e o Iraque, um observador distraído seria levado a pensar que o dr. Sampaio defendia uma desenfreada retaliação à escala planetária, tendo como alvos cada Estado, região ou caverna susceptíveis de patrocinar ou acolher a al-Qaeda e adjacências. Mas ele apenas sugeriu não se fazer nada - no Iraque e em qualquer lugar.

Aliás, todo o antiamericanismo em curso representa, na essência, um manifesto em prol da impotência ocidental. À disseminação geográfica e à diversificação de meios do fanatismo islâmico, esta linha de pensamento, que o dr. Sampaio partilha com desvelo, contrapõe resoluções da ONU, cimeiras, diálogo e consensos.

Ou seja, o vazio absoluto, próspero nos sistemas democráticos, mas muito pouco apelativo para gente que prefere um colete de explosivos a um fato Armani.

Para que se tornem viáveis, os celebrados "esforços diplomáticos" exigem que os interlocutores respeitem os mínimos da decência e da sensatez. Quanto à decência dos regimes em jogo, conversa acabada. No resto, o terrorismo só reclama o cumprimento de duas modestas condições: a extinção de Israel e a renúncia dos EUA à sua influência militar e económica além-fronteiras.

Matéria corriqueira, conforme se prova. Afinal, basta condenar os judeus a novo êxodo e permitir que os ‘Saddams’ desta vida desenvolvam armamento com largueza e conforto. Talvez alguns subsídios a fundo perdido, pagos pelos EUA a título de "compensação", também não fossem mal vistos. E, um belo dia, onde menos se esperar, centenas de pessoas voltarão a explodir, em nome de uma "causa" inédita, que o dr. Sampaio de imediato se apressará a "tentar compreender", embora discorde, mais uma vez, dos métodos utilizados.

O nosso presidente é um homem sensível, profundo e complexo. Infelizmente, e à semelhança de vários líderes europeus, não atrasa nem adianta. Apesar de tudo, o "simplório" Bush propõe-nos uma possível ordem, que reine sobre este caos para que caminhamos. No seu jeito brusco, o "cowboy" do Texas demonstra que percebe bem melhor o mundo. Culpa do mundo, com certeza.

2. Na quarta-feira, graças a umas trapalhadas antigas com o Metro de Lisboa, o dr. Ferro Rodrigues chamou "palermas" aos chefes do PSD e do CDS. Empolgado, e sob outro pretexto, um moço qualquer do PS surgiu no dia seguinte a chamar "mentirosa" à ministra da Justiça.

É grave? Por mim, não colaboro no pequeno escândalo que os insultos provocaram. Aliás, que me lembre, é o primeiro contributo útil que o PS dá à democracia portuguesa desde há longos anos. A muda "harmonia" que Salazar fez desabar sobre o País deixou efeitos que marcam até hoje a nossa vida pública.

Dentre eles, esse sinistro respeitinho que estrangula o discurso político, e que o reduziu a uma coisa balofa cheia de lugares-comuns e de fingidas vénias.

Alberto João Jardim costumava ser a excepção a esta aborrecida regra (de resto inexistente em nações civilizadas), e é por isso animador ver o PS a ultrapassar a modorra guterrista, que quase transformou o "Valium" em projecto ideológico.

Daqui para a frente, camaradas, é sempre a andar: no tratamento dos adversários, não se aceitará menos do que "pulhas", "velhacos", "biltres" e "patifes". Claro que, depois, convirá juntar à fúria verbal uma ou duas ideias. Mas isto já é um princípio.
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