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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Setembro de 2003 às 00:00
Haverá pelo menos uma razão suficientemente forte para – durante tantos anos – "Os Malucos do Riso" conseguirem impor esta marcha triunfal a que continuamos a assistir, sem que nada e ninguém os consiga travar? Haverá, com certeza.
Com maior ou menor dificuldade, o programa da SIC (com produção da SP Filmes) posiciona-se invariavelmente entre os mais vistos do dia, da semana, do mês, do ano – desafiando já o título de "arma mais eficaz" de que há memória no horário nobre da televisão portuguesa. Até porque, à partida, ninguém aposta um cêntimo numa coisa destas. Erro total, como já se percebe. Não há quem não conheça o estilo: piada fácil, primária, curta. Na maior parte dos casos, são anedotas velhas, gastas, estafadas, quase jurássicas, e que, quando interpretadas, nunca aparentam ter lá muita graçola.
A realidade indesmentível é que, diariamente, "Os Malucos do Riso" são vistos por mais de um milhão e meio de pessoas. E é assim há muito tempo. Só por isso já impõe respeito e merece admiração. Dizer que um programa destes é um subproduto, desenvolvido e interpretado por gente sem a mínima qualidade, é tentar passar um atestado de menoridade aos 40 por cento de portugueses que todos os dias vêem televisão a partir das nove da noite e preferem precisamente este programa.
Estupidez, isso sim, é não reconhecer o mérito e insistir no erro. O que a SIC faz é acertar em cheio na preferência do telespectador, o que vem conseguindo consecutivamente naquele horário e de forma durável. Mesmo quando, noutros tempos, perdia claramente (para a TVI) no horário nobre, a estação de Carnaxide atingia quase sempre bons resultados com "Os Malucos do Riso". Já se tentou de tudo um pouco para derrubá-los. Mas "Os Malucos" não caem, essa é que é essa. E importa lembrar, para quem julga que a coisa mais fácil do Mundo é fazer um programa destes e pô-lo a render, que têm sido várias as tentativas… frustradas.
Na RTP, por exemplo, "A Fábrica das Anedotas" não conseguiu vingar e rapidamente desapareceu de cena. O sucesso dos "Malucos" – por estar mais do que provado que não é uma moda (nenhuma moda dura tanto tempo) – é mesmo um caso a merecer sério estudo. É verdade que não consigo imaginar Pinto Balsemão ou Manuel S. Fonseca, em casa, depois do jantar, a rir à gargalhada enquanto assistem ao programa. Não consigo, MESMO. Mas o país real é outra coisa. O país real janta cedinho para depois se sentar em frente ao televisor. O país real chega ao sofá já com o pijaminha vestido. O país real permanece chocado com as notícias da Casa Pia. O país real ainda não esqueceu os incêndios. O país real precisa de rir. O país real, depois de rir, deita-se cedo porque no dia seguinte é preciso muita "saúde" para aguentar as filas.
De pessoas à espera do autocarro, do comboio, do metro e de carros no Marquês do Pombal, na VCI, na CREL, na CRIL, no Túnel do Grilo, na Circunvalação, na Rotunda do Freixo e por aí fora. O que eu imagino, sinceramente, é Pinto Balsemão e Manuel S. Fonseca a rir à gargalhada quando, pela manhã, têm nas mãos o resultado de mais um dia de audiências. Até já desconfio que estes dois é que são os verdadeiros "Malucos do Riso"…
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